domingo, 16 de agosto de 2009
domingo, 9 de agosto de 2009
TRILOGIA DOS GERAIS



‘As Jagunças’, ‘Filisberto das Âncoras’ e ‘Contos dos Gerais’ revelam a força de um autor com intensa paixão pelo cerrado e por Guimarães Rosa
Ramon Franco*
Como o sexo é um instinto, o leitor também, instintivamente perceberá, aos poucos, a força das palavras e das mensagens, sem vírgulas, do romancista e contista Romulo Nétto. Autor da chamada trilogia dos gerais, o jornalista diplomado reuniu em ‘As Jagunças’, ‘Contos dos Gerais’ e ‘Filisberto das Âncoras’ (os três publicados em 2009 pela Carlini & Caniato Editorial, de Cuiabá, MT) tramas e personagens que naturalmente conviveriam ombro a ombro com os retratados pelo mestre Guimarães Rosa em ‘Sagarana’, ‘Primeiras Estórias’ e ‘Grande Sertão: Veredas’. Mineiro, conterrâneo de Afonso Arinos de Melo Franco, de ‘Pelo Sertão’, Nétto recorre ao instinto de preservação e de estabelecimento de justiça para narrar vidas e tramas.
O instinto de preservação, por exemplo, pode fazer as pessoas a procurarem prazeres sexuais e em muitas páginas deste autor radicado em Cuiabá surgem a força atrativa da carne, a ânsia por vingança que alimenta ações das mulheres que, em ‘As Jagunças’, compõem um raro bando, bem como o peso geográfico dos gerais e ainda a forma roseana de prosear e narrar fatos.
Os trabalhos do romancista residem no efeito e na estrutura do conto genuinamente brasileiro, mesclando o roteiro literário de Orígenes Lessa (tido por Jorge Amado como o maior contista da moderna literatura brasileira) com as palavras e o cenário que inspiraram o autor de ‘Sagarana’. Nétto revela um jeito independente de estruturar seus personagens dentro do romance, assim cada capítulo em ‘As Jagunças’ é uma micro novela, estruturada com personagens que muitas vezes se repetem em outros momentos do livro. Falar da trilogia de forma isolada seria privar o leitor de ampliar o conhecimento do mundo ficcional deste nome das letras brasileiras. Uma ressalva deve ser constatada: o autor peca no igualar e unificar as narrativas de personagens com idades e trajetórias diferentes na voz comum de um único narrador, como se todos fossem o mesmo fio condutor. Entretanto, este fio condutor único é justificável. Trata-se de Romulo Nétto, o exato narrador de todos os enredos contidos na trilogia que não congrega apenas Minas, mas Mato Grosso, o cerrado e o Brasil. Tal como o efeito de rodar pelo solo mineiro, ainda que observando as linhas e contornos cartográficos contidos em seu mapa, e dizer: Minas Gerais é mesmo um ‘mundão’. Romulo Nétto é literatura brasileira contemporânea.
*Ramon Franco é jornalista e escritor em Marília, São Paulo. Em 2007 conquistou menção honrosa no concurso de contos ‘Tragédias Cariocas Hoje’, da editora Nova Fronteira (RJ), e o terceiro lugar no V Concurso Municipal de Contos Premio ‘Prefeitura de Niterói’, em Niterói (RJ).
LITERATURA BRASILEIRA - Romulo Nétto, um artesão das palavras

Ramon Franco*
Nem só de literatura estrangeira vive o mercado editorial do Brasil e nem só autores que habitam o eixo Rio-São Paulo alimentam a escrita contemporânea. Cristóvão Tezza, de ‘O filho eterno’, e seu colega de cidade, e de profissão, Dalton Trevisan não precisaram deixar Curitiba para que os leitores tivessem acesso aos seus textos. Nesta toada, feito um carro de boi que atravessa um chapadão, acaba de aparecer o brasileiro Romulo Nétto. Da Cuiabá mato-grossense, o contista e romancista mineiro de nascimento (é de Paracatu, mesma terra de Afonso Arinos de Melo Franco, de ‘Pelo Sertão’), publicou três romances que trazem em suas páginas o efeito do conto. Outros livros e projetos estão em fase de conclusão, prestes a ganhar páginas e caminhar pela imaginação dos leitores brasileiros.
A força artesanal de sua prosa sertaneja consiste no primeiro impacto de seu trabalho literário. ‘As jagunças’, ‘Filisberto das Âncoras’ e ‘Contos dos Gerais’ saíram no primeiro semestre deste ano pela Carlini & Caniato Editorial, com sede em Cuiabá e que reúne em seu selo obras de outro grande nome das letras mato-grossenses, Ricardo Guilherme Dicke. ‘Tarenço, o capanga de lata’ e os versos ‘Transitoriedades’ estão inéditos, entretanto, foram editados manualmente pelo próprio autor. O enfoque artesanal parece que está ligado ao processo criativo de Romulo Nétto. Além de escrever à mão, ele confecciona os seus próprios cadernos. Feito um artista plástico que, além de pintar um quadro, antes se ocupa também com a composição da tela, de todas as paletas e na fabricação do próprio pincel. Ou melhor, feito um de seus personagens Filisberto das Âncoras, que precisa usar as mesmas mãos que coçam a barba, enquanto sua mente faz indagações, para conseguir comida e caça na vastidão dos cerrados gerais.
Leia a seguir a entrevista completa com o contista, poeta e romancista de Cuiabá, que durante várias décadas trabalhou na Universidade Federal de Mato Grosso. O autor Romulo Nétto fala sobre sua obra, jornalismo, educação e do rápido encontro que teve com o colega escritor Ricardo Guilherme Dicke, um dos maiores nomes da literatura do Século XX.
O Supremo Tribunal Federal (STF) derrubou a exigência de diploma para exercer a profissão de jornalista, entretanto, um senador e um deputado federal já apresentaram duas PECs (proposta de emenda à Constituição) que exigem a volta do diploma para jornalista. Como você interpreta toda esta situação?
Romulo Nétto: Na minha óptica a visão do STF é equivocada. É preciso, antes de mais nada, valorizar a formação superior. Quando o vice-presidente da Globo disse que estava amarrado por não poder contratar um profissional para escrever sobre determinada área uma vez que o mesmo não era comunicador social, ou ele se equivocou ou demonstrou uma tremenda ignorância. Qualquer jornal pode contratar um médico, um físico, um químico como articulista. E para ser articulista não vejo necessidade de ser jornalista. Ele precisa, isto sim, ter notório saber em seu ramo de conhecimento. Enquanto jornalista não me aventurarei a escrever sobre um assunto que não domine razoavelmente. Não me arriscarei a escrever sobre física quâ ntica ou fisiologia. Talvez queiram acabar com o ensino superior no Brasil. Com ele a vida do profissional já anda difícil, sem ele então... Não consigo conceber um indivíduo exercendo jornalismo desprovido do mínimo conhecimento que a graduação oferece. Uma de minhas duas filhas é estudante de Comunicação Social e ela estava descontente com a decisão do STF. Eu lhe disse para não se importar com o fato e se preocupar em ter a melhor qualificação possível. Há de sobressair aqueles profissionais que conseguirem o melhor aperfeiçoamento, através de especializações, mestrado, doutorado e pós-doutorado e, obviamente, da experiência que só o tempo e o sacrifício possibilitam.
Comente um pouco as temáticas abordadas em seus livros, principalmente os três últimos lançados em maio pela Carlini & Caniato Editorial, de Cuiabá.
Romulo Nétto: São três livros. Embora todos sejam classificados como contos eu não considero assim. Apenas ‘Contos dos Gerais’ deve ter essa classificação. Minha temática é a do homem/mulher sertanejo(a) dos Gerais, onde durante séculos imperou a violência – física e psicológica. Em ‘Contos dos Gerais’ há muito de minha infância no distante Paracatu (terra de Afonso Arinos, autor de Pelo Sertão, entre outros livros).
‘Filisberto das Âncoras’ o primeiro deles a ser escrito. Ele foi recrutado de poemas de um livro que intitulei ‘Um Chão de Quase Coisas’. É a história de um sertanejo calejado que por mais de trinta anos nunca tinha tido uma mulher, de repente ela (Hemengarda Epifânia, nome retirado do quadrinho Kid Farofa – Tumbleweeds), veio lhe dar um norte para vida, ensinando que deveria dar o troco para os políticos na boca da urna. Narra sua ida para a cidade onde votaria. A longa caminhada, a chegada, o recrutamento para um quartel (local onde lá em Minas Gerais ficavam os sertanejos que vinham para votar e lá permaneciam praticamente incomunicáveis até a eleição). O encontro com outros aquartelados, os ‘perrengados’ que são os personagens coadjuvantes, o nascimento dos filhos e a escolha dos padrinhos.
Em ‘As Jagunças’ narro a formação de um bando formado por 21 mulheres. Não são mulheres comuns. Há duas com formação superior, há cantora, violeira e sanfoneira, todas empenhadas em aplicar justiça com suas próprias armas. É um livro ímpar. Não emprego vírgula, ponto e vírgula ou ponto final. Aliás, minha poesia desde 1968 é escrita sem vírgula. Agora, depois de publicado ‘As Jagunças’ é o livro que mais me atrai a atenção pelo fato de ter lidado naturalmente com as 21 mulheres, ter dado a elas oportunidade de se rebelarem contra a tirania. Oxalá as mulheres deste nosso conturbado século possam se rebelar, sem a necessidade de usar armas, mas tão somente a sensibilidade e a inteligência que lhes são tão peculiares. O leitor por certo sentirá estranheza quando ler ‘Moça na Bicicleta’, de ‘Contos dos Gerais’, e não encontrar quem matou Lavínia. Usando da recorrência só revelo o assassino no último capítulo de ‘As Jagunças’.
No blog da sua editora, a Carlini & Caniato, alguns leitores criticam o isolamento cultural do Mato Grosso e ressaltam a importância do seu trabalho, reivindicando, inclusive um reconhecimento nacional. O que você pensa sobre isso?
Romulo Nétto: Concordo plenamente. Em primeiro lugar não passamos de Estado de periferia. Um autor do Norte, Nordeste ou Centro-Oeste só consegue êxito em sua carreira literária se estiver baseado no ‘Sul Maravilha’ (eixo Rio-São Paulo). Por melhor que seja seu texto, se ele não estiver nas rodas literárias do Rio e de São Paulo, isto é, se não for publicado por uma editora localizada em um desses dois Estados, dificilmente ele conseguirá ser conhecido e reconhecido. A Carlini & Caniato Editorial não deixa nada a desejar em comparação com as grandes editoras localizadas no citado eixo. Aqui a coisa não difere muito. Santo de casa ainda não faz milagres.
Como é o ritmo da sua produção literária, você mantém algum hábito?
Romulo Nétto: Embora tenha uma incrível facilidade para digitar prefiro escrever à mão. Faço meus próprios cadernos, em casa. Divido 50 folhas de papel A4 ao meio, perfuro, faço uma capa de papel duplex ou triplex, coloco espiral e está pronto o meu caderno. Uso sempre caneta azul, escrita fina. Eu me sento na varanda de minha casa (das 9h às 11 horas e das 16h às 17 horas), uma boa música correndo solta, preferencialmente Vivaldi e a companheira de longa data Antarctica (em lata). Esse é o cenário perfeito. Não faço nenhum planejamento para escrever, nunca me preocupei em elaborar personagens. Quando eles estão prontos, em algum lugar do subconsciente e querem se safar dão o sinal e a qualquer hora do dia ou da noite, em qualquer lugar me ponho a escrever. Escrevo até cansar. Posso retornar no mesmo dia ou daí dois ou três dias depois e recomeçar como se não tivesse parado de escrever. Às vezes escrevo dois livros em um ano, às vezes três. Nada planejado. Quem manda são os meus personagens ou os poemas. Quando eles se sentem enjaulados pulam para a folha branca de mais papel mais próxima.
Em julho de 2008 morria Ricardo Guilherme Dicke. Qual era a sua relação com Dicke, aliás, um escritor elogiado pelo próprio Guimarães Rosa?
Romulo Nétto: Não fui amigo de Ricardo Guilherme Dicke. Eu me encontrei com ele apenas uma vez e pouco conversamos. Li alguns livros dele. Acho que se não tivesse se refugiado aqui em Cuiabá, seria nome nacional.
Qual é o melhor conto da literatura brasileira? E qual é o maior escritor vivo da literatura brasileira?
Romulo Nétto: Não me atrevo a escolher um conto. Muito menos nomear um escritor como o melhor autor vivo da literatura brasileira.
Fale um pouco da sua experiência literária e jornalística, como é conviver com estas duas artes? Onde se encontra o ponto de separação entre jornal e livro?
Romulo Nétto: Não foi preciso separar. Na verdade não exerci a profissão, senão esporadicamente. Na Universidade Federal de Mato Grosso fui assessor de vice-reitoria, chefe de Relações Públicas (não mais que uns seis meses nos dois cargos), depois fui para a Presidência da Comissão Permanente de Concurso Vestibular, para finalmente ser Supervisor da Imprensa Universitária. A Imprensa Universitária não tinha nada de imprensa, era na verdade o embrião da Editora Universitária, onde permaneci de 1980 a 1991.
Fale um pouco dos seus projetos
Romulo Nétto: Sou mineiro de Paracatu. Jornalista pela Universidade de Brasília. Terminei há seis meses um pequeno livro intitulado ‘Tarenço, o Capanga de Lata’ e ‘Simplesmente Gerais’. ‘Simplesmente Gerais’ é um livro dividido em três partes: ‘Vereda’, ‘Cerrado’ e ‘Sertão’. Pretendo ir brevemente para Minas fotografar o Parque Nacional Grande Sertão: Veredas, a floresta de buritizais e as veredas de Três Marias, as fotografias serão utilizadas em cada ambiente do livro. Faremos, também, um DVD utilizando esses mesmos ambientes. Já compus sete músicas. Estou procurando um violeiro para arranjá-las. Elas serão o fundo musical do documentário. Ramon Carlini, da Carlini & Caniato Editorial cui dará do projeto para captarmos recursos através da Lei Rouanet. Estou trabalhando, simultaneamente, em três outros títulos: ‘Tatão Malemais, o Capador de Anjos’, ‘Zé, o Caipira que Matou o Papa’ e ‘A Revolta dos Livros’.
*Ramon Franco é jornalista e escritor em Marília, São Paulo. Em 2007 conquistou menção honrosa no concurso de contos ‘Tragédias Cariocas Hoje’, da editora Nova Fronteira (RJ), e o terceiro lugar no V Concurso Municipal de Contos Premio ‘Prefeitura de Niterói’, em Niterói (RJ).
sábado, 8 de agosto de 2009
INACABADOS - POESIA
JOÃO TERNURA
Hoje João Ternura fez moradia
em meu coração talvez talvez
procure aquecer-se: lá fora é frio
e a chuva milagreira se arrasta
horas a fio: a noite suave
engoliu luas e estrelas
e ele pobre menino descalço
procura sem sono o compasso lento
de meu coração.
Hoje João Ternura está triste
não me faz cócegas nos pés
não brinca de assombração
não derruba pratos na cozinha
não põe sal nos doces de mamãe.
Olho para João Ternura e tenho medo:
talvez talvez ele tenha ficado adulto
e não queira brincar de ciranda
e soltar balão comer pé de moleque
deixando o doce escorrer pela boca
como é próprio das crianças.
João Ternura está sério: olha-me enviesado
não me faz caretas nem põe a língua para fora.
Olho-o a um canto da sala:
cabisbaixo magicando fazendo saudades.
Num relance sinto imensa ternura
grassar em seus olhos: e ele me ri
um riso puro e travesso.
Nessas horas ele é meu anjo da guarda
não poupa conselhos
guia-me os passos
abre-me os olhos.
O canto da sala é seu lugar preferido
seu mundo encantado
é onde brinca de faz-de-conta
sobrecerrando os olhos claros
pensando nova traquinagem
para depois de amanhã
João Ternura é puro demais
para ser criança
e criança demais para ser divino.
Hoje certamente ele não pensa
em colocar espinhos sob o lençol
da cama de papai: ou dar banho
no gato de estimação de minhas irmãs
hoje está João demais
para ser o espírito das coisas.
João Ternura mora em mim
sem a marotice de antigamente
faz-me dois ou três carinhos
ri-me um riso estridente
fecha-se em seu mundo encantado
e quando penso que está sério
vejo João Ternura
brincando de fazer saudade.
TEMA NÚMERO DOIS
Não importa tua cor tua altura
teus olhos religião poder aquisitivo
tua beleza exterior.
Repara: ao lado há um coração vagabundo
cansado ainda querendo se entregar todo
venha vê-lo senti-lo.
Inscrições abertas eternamente enquanto
houver sinal de vida inteligência;
todos os andares deste coração envelhecido
precocemente têm janelas voltadas
para o sol fonte da vida.
O edifício-coração é grande porém
comporta apenas outro coração: o teu.
TEMA NÚMERO UM
Minha casa meu exílio permanente
falta-me o mais rudimentar
sinal de tua presença
teu riso claro enigma encimando
as portas escuras;
a sombra no jardim
passos no quintal; o calor
de teu corpo após a saída do banho
a música envolvente penetrando
meus sonhos e ouvidos
na calma de quem não quer nada
mesmo querendo tudo.
Teu beijo em minha boca
de menino travesso
esperando castigo
pelas traquinagens de anteontem.
Tudo é passado em minha mente
permanece apenas a dúvida
invadindo o pensamento;
minha casa meu exílio permanente
tua sombra o beijo roubado
com gosto de café sobremesa
doce de pêssego saudade.
CANÇÃO
É preciso fazer uma canção
para as velhas prostitutas
aquelas que ganharam jóias
palacetes e milhões dos coronéis
das Gerais em passeio pelo Rio.
Como esquecer o riso estridente
no meio da noite morna
povoada por álcool e boleros!
Hoje com o corpo cansado
rugas acentuadas no rosto
de velhice precoce
sentadas na soleira da casa
colonial elas esperam
esperam o amante que não virá
jamais talvez tenha morrido
de tuberculose ou sífilis
e ela sonha num sonhar sem fim:
a mulher-dama de ontem
vê refletido no espelho da sala
seu rosto de antigamente
teve colares perfume francês
roupas de seda
hoje as peças são de chita o perfume barato
e o batom vermelho-púrpura
retoca os lábios quase murchos
a boca semidesdentada: tudo
são apenas lembranças guardadas
no peito maltratado pelos estranhos amores.
Mas a vida... a vida continua
entre sonhos esperanças e pesadelos.
PÁSSAROS
Trago em minha memória cansada
os pássaros
todos os pássaros de minha perdida
lembrança ancestral
eles se bicam numa luta
desigual
se enfrentando calorosos na disputa
de um futuro
que não viverão jamais.
SEGREDOS
Fabriquei o tempo
com minhas mãos podres
de argila sentimentos
guardei na bolsa de marfim
todos os segredos passados futuros
redesenhei na memória
o eco do destino
me afundei em beijos
nos teus seios de terra
mãe solidária juvenil.
CONVERSAS
Para saber quem sou o que serei
mergulhei em lusco-fuscos
cogumelos me perdi em conversas
com antigas formigas
palreei dúvidas
com curiangos abóboras
naveguei por sete mares
indefeso me rendi
aos encantos das pedras
dos riachos das borboletas
ao terceiro dia ressuscitei
sem lágrimas sem pátria
sem opinião.
RENATUREZA
Não adianta saber que a noite
escancara sua boca de madrugada
com gigantes dentes estelares
ou que enquanto durmo
renasço em sonhos outonais.
não adianta mastigar estrelas
pensando prensá-las
em papel reciclável.
RECORDAÇÕES
Desde sempre me perdi
entre sonhos buritizais
mamulengos doces de caju
teus sorrisos de anteontem
quando ainda nem pensava
teu beijo;
desde hoje eu quero
aparar meu caminho
esquecer jardins pintassilgos
ilusórias recordações.
MARIA
As Marias do meu tempo
andavam vestidas de branco
longos lenços envolvendo
a cabeça;
hoje nossas Marias pintam
os lábios de carmim
não conversam com as pedras
sonham cassinos desfiles de moda
um beijo de desconhecidos
recortado de página qualquer
de revistas folhetins.
NUVENS
As nuvens pensaram em mim
se derreteram
esparramando pelo chão
brotando vidas.
AGONIA
Hoje por pura maldade
desmembrei o pensamento
dos pássaros
atirei para longe
calmo assisti a agonia
de um por um.
NATURALMENTE
As mesmices se escondem
nas patas do louva-a-deus?
No diálogo ensandecido
do tamanduá com formigas
ou no piscar de olhos
dos que naturalmente tiram
de cada pobre necessitado
o seu pão nosso de todos os dias?
PESADELO
Passeei os olhos mal acordados
por sobre o visgo das lesmas
em permanente banquete
no fundo do quintal;
relembrei segredos desejos
incontidos somadas saudades
parei no tempo como
bailasse beija-flor
era domingo véspera
do casamento de meus avós.
FELICIDADE
À noite esquecido de mim
também de todos
eu me perco ouvindo grilos
sorrindo estrelas
beijando fragâncias fugidias
dos raios lunares;
à noite quando posso
deserdo sorrisos
finjo que a felicidade
está a um palmo das mãos.
DAS COISAS
Das coisas que me lembro
as que mais tenho saudades
é de quando nadava estrelas
num mar de almas calmas
encravadas no sertão cerrado;
das longas conversas com
mirrados pés de paus
do desejo incontido
de decifrar futuros
rememorando todos os passados.
POEMA PARA QUEM
VIVE NO MEIO DO CERRADO
Em se plantando só
já tudo dá.
I
Hoje passarei minha vida a limpo
somarei a ela os beijos esquecidos
os olhares que não nos demos
os sorrisos que não trocamos
hoje passei minha vida a limpo.
II
Brinco o amor com sangue suor
brinco o amor como as mulheres
brincam com seus homens
brinco por conhecer meu destino
elas para matar a fome.
III
Quando o sol nasce
deflorando tuas retinas
sinto a razão da vida
viver para amar
morrer em busca de teu amor.
IV
Quando puder beberei
em teu olhar todo meu futuro
quando quiser beberás
em meus sorrisos a história de nossas vidas.
V
Reconheço que sempre ti traí
com as estrelas sedutoras
elas me visitavam
nas noites juninas enquanto dormias.
VI
Teus braços minha casa
teus olhos meus exílio permanente.
Hoje João Ternura fez moradia
em meu coração talvez talvez
procure aquecer-se: lá fora é frio
e a chuva milagreira se arrasta
horas a fio: a noite suave
engoliu luas e estrelas
e ele pobre menino descalço
procura sem sono o compasso lento
de meu coração.
Hoje João Ternura está triste
não me faz cócegas nos pés
não brinca de assombração
não derruba pratos na cozinha
não põe sal nos doces de mamãe.
Olho para João Ternura e tenho medo:
talvez talvez ele tenha ficado adulto
e não queira brincar de ciranda
e soltar balão comer pé de moleque
deixando o doce escorrer pela boca
como é próprio das crianças.
João Ternura está sério: olha-me enviesado
não me faz caretas nem põe a língua para fora.
Olho-o a um canto da sala:
cabisbaixo magicando fazendo saudades.
Num relance sinto imensa ternura
grassar em seus olhos: e ele me ri
um riso puro e travesso.
Nessas horas ele é meu anjo da guarda
não poupa conselhos
guia-me os passos
abre-me os olhos.
O canto da sala é seu lugar preferido
seu mundo encantado
é onde brinca de faz-de-conta
sobrecerrando os olhos claros
pensando nova traquinagem
para depois de amanhã
João Ternura é puro demais
para ser criança
e criança demais para ser divino.
Hoje certamente ele não pensa
em colocar espinhos sob o lençol
da cama de papai: ou dar banho
no gato de estimação de minhas irmãs
hoje está João demais
para ser o espírito das coisas.
João Ternura mora em mim
sem a marotice de antigamente
faz-me dois ou três carinhos
ri-me um riso estridente
fecha-se em seu mundo encantado
e quando penso que está sério
vejo João Ternura
brincando de fazer saudade.
TEMA NÚMERO DOIS
Não importa tua cor tua altura
teus olhos religião poder aquisitivo
tua beleza exterior.
Repara: ao lado há um coração vagabundo
cansado ainda querendo se entregar todo
venha vê-lo senti-lo.
Inscrições abertas eternamente enquanto
houver sinal de vida inteligência;
todos os andares deste coração envelhecido
precocemente têm janelas voltadas
para o sol fonte da vida.
O edifício-coração é grande porém
comporta apenas outro coração: o teu.
TEMA NÚMERO UM
Minha casa meu exílio permanente
falta-me o mais rudimentar
sinal de tua presença
teu riso claro enigma encimando
as portas escuras;
a sombra no jardim
passos no quintal; o calor
de teu corpo após a saída do banho
a música envolvente penetrando
meus sonhos e ouvidos
na calma de quem não quer nada
mesmo querendo tudo.
Teu beijo em minha boca
de menino travesso
esperando castigo
pelas traquinagens de anteontem.
Tudo é passado em minha mente
permanece apenas a dúvida
invadindo o pensamento;
minha casa meu exílio permanente
tua sombra o beijo roubado
com gosto de café sobremesa
doce de pêssego saudade.
CANÇÃO
É preciso fazer uma canção
para as velhas prostitutas
aquelas que ganharam jóias
palacetes e milhões dos coronéis
das Gerais em passeio pelo Rio.
Como esquecer o riso estridente
no meio da noite morna
povoada por álcool e boleros!
Hoje com o corpo cansado
rugas acentuadas no rosto
de velhice precoce
sentadas na soleira da casa
colonial elas esperam
esperam o amante que não virá
jamais talvez tenha morrido
de tuberculose ou sífilis
e ela sonha num sonhar sem fim:
a mulher-dama de ontem
vê refletido no espelho da sala
seu rosto de antigamente
teve colares perfume francês
roupas de seda
hoje as peças são de chita o perfume barato
e o batom vermelho-púrpura
retoca os lábios quase murchos
a boca semidesdentada: tudo
são apenas lembranças guardadas
no peito maltratado pelos estranhos amores.
Mas a vida... a vida continua
entre sonhos esperanças e pesadelos.
PÁSSAROS
Trago em minha memória cansada
os pássaros
todos os pássaros de minha perdida
lembrança ancestral
eles se bicam numa luta
desigual
se enfrentando calorosos na disputa
de um futuro
que não viverão jamais.
SEGREDOS
Fabriquei o tempo
com minhas mãos podres
de argila sentimentos
guardei na bolsa de marfim
todos os segredos passados futuros
redesenhei na memória
o eco do destino
me afundei em beijos
nos teus seios de terra
mãe solidária juvenil.
CONVERSAS
Para saber quem sou o que serei
mergulhei em lusco-fuscos
cogumelos me perdi em conversas
com antigas formigas
palreei dúvidas
com curiangos abóboras
naveguei por sete mares
indefeso me rendi
aos encantos das pedras
dos riachos das borboletas
ao terceiro dia ressuscitei
sem lágrimas sem pátria
sem opinião.
RENATUREZA
Não adianta saber que a noite
escancara sua boca de madrugada
com gigantes dentes estelares
ou que enquanto durmo
renasço em sonhos outonais.
não adianta mastigar estrelas
pensando prensá-las
em papel reciclável.
RECORDAÇÕES
Desde sempre me perdi
entre sonhos buritizais
mamulengos doces de caju
teus sorrisos de anteontem
quando ainda nem pensava
teu beijo;
desde hoje eu quero
aparar meu caminho
esquecer jardins pintassilgos
ilusórias recordações.
MARIA
As Marias do meu tempo
andavam vestidas de branco
longos lenços envolvendo
a cabeça;
hoje nossas Marias pintam
os lábios de carmim
não conversam com as pedras
sonham cassinos desfiles de moda
um beijo de desconhecidos
recortado de página qualquer
de revistas folhetins.
NUVENS
As nuvens pensaram em mim
se derreteram
esparramando pelo chão
brotando vidas.
AGONIA
Hoje por pura maldade
desmembrei o pensamento
dos pássaros
atirei para longe
calmo assisti a agonia
de um por um.
NATURALMENTE
As mesmices se escondem
nas patas do louva-a-deus?
No diálogo ensandecido
do tamanduá com formigas
ou no piscar de olhos
dos que naturalmente tiram
de cada pobre necessitado
o seu pão nosso de todos os dias?
PESADELO
Passeei os olhos mal acordados
por sobre o visgo das lesmas
em permanente banquete
no fundo do quintal;
relembrei segredos desejos
incontidos somadas saudades
parei no tempo como
bailasse beija-flor
era domingo véspera
do casamento de meus avós.
FELICIDADE
À noite esquecido de mim
também de todos
eu me perco ouvindo grilos
sorrindo estrelas
beijando fragâncias fugidias
dos raios lunares;
à noite quando posso
deserdo sorrisos
finjo que a felicidade
está a um palmo das mãos.
DAS COISAS
Das coisas que me lembro
as que mais tenho saudades
é de quando nadava estrelas
num mar de almas calmas
encravadas no sertão cerrado;
das longas conversas com
mirrados pés de paus
do desejo incontido
de decifrar futuros
rememorando todos os passados.
POEMA PARA QUEM
VIVE NO MEIO DO CERRADO
Em se plantando só
já tudo dá.
I
Hoje passarei minha vida a limpo
somarei a ela os beijos esquecidos
os olhares que não nos demos
os sorrisos que não trocamos
hoje passei minha vida a limpo.
II
Brinco o amor com sangue suor
brinco o amor como as mulheres
brincam com seus homens
brinco por conhecer meu destino
elas para matar a fome.
III
Quando o sol nasce
deflorando tuas retinas
sinto a razão da vida
viver para amar
morrer em busca de teu amor.
IV
Quando puder beberei
em teu olhar todo meu futuro
quando quiser beberás
em meus sorrisos a história de nossas vidas.
V
Reconheço que sempre ti traí
com as estrelas sedutoras
elas me visitavam
nas noites juninas enquanto dormias.
VI
Teus braços minha casa
teus olhos meus exílio permanente.
AS JAGUNÇAS
Lucia Helena Vendrusculo Possari*
Em As Jagunças, Romulo Nétto abusa do jaguncismo e apresenta ao leitor uma obra jagunça.
Sabe-se que de tanto andar pelo mundo, pela Ameríndia, pelas Serras das Gerais, vindo de Paracatu e enraizando-se em Cuiabá, Romulo Nétto, oferece em sua poesia,em seus contos, em seu romance aquilo em que cravou olho, gravou nos ouvidos, transformando em arte a vida.
Especificamente neste texto – não me arrisco aqui a classificá-lo como o faz a teoria clássica da literatura – o autor intensifica sua escrita, na prosa, com muita poética, para tratar de uma história de personagens mulheres – e neste texto elas não são gênero, são sexo – num tempo e num espaço que, mesmo mostrado cronologicamente e espacialmente, remete o leitor a qualquer lugar do mundo, em qualquer tempo, onde o horror, a submissão e resistência têm feito história. A história da in-dignidade humana.
O tempo é um tempo cultural, metonímico. Ao mesmo tempo em que a narrativa se faz no passado, há a pressuposição de um ainda-não. Assim, na leitura, fundem-se no presente.
As mulheres empreendem uma luta contra a hegemonia do homem. Fazem-se brutas, fazem-se mulheres com os homens e de homens com as mulheres. Fogem de ser mulheres para construírem seu lugar nos desmundos e nos desmandos.
Há todo tipo de relações que precisam ser refeitas – apesar da hegemonia: as das mulheres das várias regiões, das várias culturas, das várias linguagens, das várias etnias, trazendo à ribalta forma de resistência, de formulação de alternativas subalternas e insurgentes.
São lutas e contradições permanentes, nas subjetividades, nas intersubjetividades, nos atos tresloucados coletivos.
Prevenindo opressão e dominação, criam uma ecologia de diferenças, que subsistem enquanto permanece a hierarquia, mas fazem disso uma denúncia poderosa, ao ponto que à hierarquia não é permitido desaparecer.
A luta contra a exclusão e a dominação funda essa diferenciada literatura, onde as jagunças não se organizam nem se constituem como se vê em situações culturais outras. Elas são a própria des-organização do tempo-acontecimento, tornando-o policrônico, progredindo não-linearmente e vice-versa.
Com essa estruturação de roteiro, como se poderia pensar a forma de apresentação? A linguagem é mastigada por elas, sem pontos ou vírgulas.
A vida deles não teve parágrafo, nem travessão, avisando quando deveriam e nem se poderiam falar. Pontuar suas falas seria uma extravagância desnecessária. A transposição da oralidade, se, no início, provoca um certo des-gosto aos acostumados com a linguagem-padrão, logo após, mergulha-nos no mundo delas, numa ecologia de saberes. Suas histórias, seu real, nos chegam pelos seus conceitos e pela própria linguagem jagunça.
Para falar sobre As Jagunças me foi necessário ler desarmadamente, por várias vezes, rabiscando, buscando nexos, nem sempre visíveis. Que bobagem a minha! Esse texto é rede de conhecimentos para os quais não se tem mapa, as jagunças são rizomas.
* Doutora em Semiótica pela Universidade de São Paulo. Professora do Departamento de Comunicação da UFMT – Campus Cuiabá.
Em As Jagunças, Romulo Nétto abusa do jaguncismo e apresenta ao leitor uma obra jagunça.
Sabe-se que de tanto andar pelo mundo, pela Ameríndia, pelas Serras das Gerais, vindo de Paracatu e enraizando-se em Cuiabá, Romulo Nétto, oferece em sua poesia,em seus contos, em seu romance aquilo em que cravou olho, gravou nos ouvidos, transformando em arte a vida.
Especificamente neste texto – não me arrisco aqui a classificá-lo como o faz a teoria clássica da literatura – o autor intensifica sua escrita, na prosa, com muita poética, para tratar de uma história de personagens mulheres – e neste texto elas não são gênero, são sexo – num tempo e num espaço que, mesmo mostrado cronologicamente e espacialmente, remete o leitor a qualquer lugar do mundo, em qualquer tempo, onde o horror, a submissão e resistência têm feito história. A história da in-dignidade humana.
O tempo é um tempo cultural, metonímico. Ao mesmo tempo em que a narrativa se faz no passado, há a pressuposição de um ainda-não. Assim, na leitura, fundem-se no presente.
As mulheres empreendem uma luta contra a hegemonia do homem. Fazem-se brutas, fazem-se mulheres com os homens e de homens com as mulheres. Fogem de ser mulheres para construírem seu lugar nos desmundos e nos desmandos.
Há todo tipo de relações que precisam ser refeitas – apesar da hegemonia: as das mulheres das várias regiões, das várias culturas, das várias linguagens, das várias etnias, trazendo à ribalta forma de resistência, de formulação de alternativas subalternas e insurgentes.
São lutas e contradições permanentes, nas subjetividades, nas intersubjetividades, nos atos tresloucados coletivos.
Prevenindo opressão e dominação, criam uma ecologia de diferenças, que subsistem enquanto permanece a hierarquia, mas fazem disso uma denúncia poderosa, ao ponto que à hierarquia não é permitido desaparecer.
A luta contra a exclusão e a dominação funda essa diferenciada literatura, onde as jagunças não se organizam nem se constituem como se vê em situações culturais outras. Elas são a própria des-organização do tempo-acontecimento, tornando-o policrônico, progredindo não-linearmente e vice-versa.
Com essa estruturação de roteiro, como se poderia pensar a forma de apresentação? A linguagem é mastigada por elas, sem pontos ou vírgulas.
A vida deles não teve parágrafo, nem travessão, avisando quando deveriam e nem se poderiam falar. Pontuar suas falas seria uma extravagância desnecessária. A transposição da oralidade, se, no início, provoca um certo des-gosto aos acostumados com a linguagem-padrão, logo após, mergulha-nos no mundo delas, numa ecologia de saberes. Suas histórias, seu real, nos chegam pelos seus conceitos e pela própria linguagem jagunça.
Para falar sobre As Jagunças me foi necessário ler desarmadamente, por várias vezes, rabiscando, buscando nexos, nem sempre visíveis. Que bobagem a minha! Esse texto é rede de conhecimentos para os quais não se tem mapa, as jagunças são rizomas.
* Doutora em Semiótica pela Universidade de São Paulo. Professora do Departamento de Comunicação da UFMT – Campus Cuiabá.
CONTOS DOS GERAIS
Maria de Lourdes Bandeira De Lamonica Freire*
Devemos a Darcy Ribeiro uma teoria geral do Brasil que explica o processo de nossa formação e sentido, tornando-nos inteligíveis enquanto povo e situando-nos na humanidade. Somos, segundo o mestre Darcy Ribeiro, um povo novo com uma vida vivida em situação de dependência e opressão, mas com gana de mandar no nosso destino, muito embora como diga Chico Buarque de Holanda eis que chega a roda viva e carrega o destino pra lá.
Para explicar a unidade e a diversidade do povo brasileiro, Darcy cria o conceito de macro-etnia que remete à unidade e dos brasis que historicamente se formaram como núcleos aglutinadores e aculturadores que remetem às diferenças, às diversidades.
Entre esses variados brasis destaca-se o Brasil sertanejo, em que historicamente se forma o povo dos gerais, a gente dos sertões, gente boa, leal, prestimosa, respeitosa, sem medo do ermo das vastidões. Gente lacônica, rústica. Gente de honra, de brio, mas que também não tem problemas em contrariar ou em quebrar regras, em assumir condutas anômicas e quando assumidas, levadas às últimas consequências, às raias da dor e da violência.
Romulo escolheu o Brasil sertanejo como pátria de seus contos, a exemplo dos maiores que nela encontraram suas nascentes criativas, como João Guimarães Rosa, como Bernardo Elis.
É nesse Brasil profundo que se enraízam os contos de Romulo Nétto e é essa gente dos gerais que os protagoniza. São contos lacônicos, densos, humanos. São contos que nos afrontam com a face trágica de nossa humanidade. São contos pungentes, mas ainda assim pontuados de lirismo que ás vezes nele se incrusta como cristais luminosos ou como bordados singelos das mulheres dos gerais.
Os Contos dos Gerais se colocam na rica e fecunda esteira da literatura regional brasileira e Dostoievsky já dizia, com toda sabedoria que nada mais universal que o local e, por extensão, que o regional.
A edição desses contos enriquece as letras mato-grossenses e conferem a Romulo o reconhecimento literário que há muito lhe é devido.
* Pós-doutora em Antropologia pela Universidade de São Paulo.
Devemos a Darcy Ribeiro uma teoria geral do Brasil que explica o processo de nossa formação e sentido, tornando-nos inteligíveis enquanto povo e situando-nos na humanidade. Somos, segundo o mestre Darcy Ribeiro, um povo novo com uma vida vivida em situação de dependência e opressão, mas com gana de mandar no nosso destino, muito embora como diga Chico Buarque de Holanda eis que chega a roda viva e carrega o destino pra lá.
Para explicar a unidade e a diversidade do povo brasileiro, Darcy cria o conceito de macro-etnia que remete à unidade e dos brasis que historicamente se formaram como núcleos aglutinadores e aculturadores que remetem às diferenças, às diversidades.
Entre esses variados brasis destaca-se o Brasil sertanejo, em que historicamente se forma o povo dos gerais, a gente dos sertões, gente boa, leal, prestimosa, respeitosa, sem medo do ermo das vastidões. Gente lacônica, rústica. Gente de honra, de brio, mas que também não tem problemas em contrariar ou em quebrar regras, em assumir condutas anômicas e quando assumidas, levadas às últimas consequências, às raias da dor e da violência.
Romulo escolheu o Brasil sertanejo como pátria de seus contos, a exemplo dos maiores que nela encontraram suas nascentes criativas, como João Guimarães Rosa, como Bernardo Elis.
É nesse Brasil profundo que se enraízam os contos de Romulo Nétto e é essa gente dos gerais que os protagoniza. São contos lacônicos, densos, humanos. São contos que nos afrontam com a face trágica de nossa humanidade. São contos pungentes, mas ainda assim pontuados de lirismo que ás vezes nele se incrusta como cristais luminosos ou como bordados singelos das mulheres dos gerais.
Os Contos dos Gerais se colocam na rica e fecunda esteira da literatura regional brasileira e Dostoievsky já dizia, com toda sabedoria que nada mais universal que o local e, por extensão, que o regional.
A edição desses contos enriquece as letras mato-grossenses e conferem a Romulo o reconhecimento literário que há muito lhe é devido.
* Pós-doutora em Antropologia pela Universidade de São Paulo.
FILISBERTO DAS ÂNCORAS
Cristina Campos*
A obra Filisberto das Âncoras, de Romulo Nétto, narra um trecho da vida de um sertanejo típico dos Gerais – região de Cerrado que atravessa vários Estados brasileiros, como Bahia, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso. Sujeito forte, corajoso, honesto e humilde, incorpora a alma de uma parcela de cidadãos que quase nada recebem da sociedade. Profundo conhecedor das potencialidades do Cerrado, cujas riquezas naturais sabe explorar como ninguém, sobrevivendo no limite, Filisberto é, antes de tudo, um forte, junto com sua companheira, Hemengarda Epifânia. Apesar das agruras do cotidiano, é feliz (Filisberto), chumbado no chão sertanejo (das Âncoras), quase bicho.
Neste livro, Romulo Nétto denuncia um sistema político e econômico de herança feudal, comandado por coronéis que se perpetuam no poder manipulando os eleitores, valendo-se de diferentes estratégias: desde bajulação e compra de consciências até o uso da força armada, aquartelando pessoas para nos “currais” eleitorais – prática que se perpetua, atualizada, em muitos locais do País.
Como um bom mineiro, o autor se mantém fiel às suas origens: a linguagem explorada em Filisberto das Âncoras surpreende um leitor desavisado, pois, além de utilizar a dicção e o vocabulário regional, aproximando o texto escrito da oralidade, ele reinventa grafias e praticamente abole os tradicionais sinais de pontuação, o que acelera o fluxo da narrativa e da consciência, mas perturba e confunde, propositalmente, o interlocutor.
É um texto para leitores iniciados, por isso aconselha-se certa dose de paciência inicial, pois, vencidas as primeiras páginas, o estranhamento provocará a surpresa da novidade, o deleite de (re)conhecer um tipo que, apesar de exaltado e imortalizado pela Literatura e pela Arte, permanece à margem do sistema, sobrevivendo na sombra: Filisberto das Âncoras.
* Doutora em Educação – USP; professora de Português e Literatura Brasileira no IFMT – Campus Cuiabá.
A obra Filisberto das Âncoras, de Romulo Nétto, narra um trecho da vida de um sertanejo típico dos Gerais – região de Cerrado que atravessa vários Estados brasileiros, como Bahia, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso. Sujeito forte, corajoso, honesto e humilde, incorpora a alma de uma parcela de cidadãos que quase nada recebem da sociedade. Profundo conhecedor das potencialidades do Cerrado, cujas riquezas naturais sabe explorar como ninguém, sobrevivendo no limite, Filisberto é, antes de tudo, um forte, junto com sua companheira, Hemengarda Epifânia. Apesar das agruras do cotidiano, é feliz (Filisberto), chumbado no chão sertanejo (das Âncoras), quase bicho.
Neste livro, Romulo Nétto denuncia um sistema político e econômico de herança feudal, comandado por coronéis que se perpetuam no poder manipulando os eleitores, valendo-se de diferentes estratégias: desde bajulação e compra de consciências até o uso da força armada, aquartelando pessoas para nos “currais” eleitorais – prática que se perpetua, atualizada, em muitos locais do País.
Como um bom mineiro, o autor se mantém fiel às suas origens: a linguagem explorada em Filisberto das Âncoras surpreende um leitor desavisado, pois, além de utilizar a dicção e o vocabulário regional, aproximando o texto escrito da oralidade, ele reinventa grafias e praticamente abole os tradicionais sinais de pontuação, o que acelera o fluxo da narrativa e da consciência, mas perturba e confunde, propositalmente, o interlocutor.
É um texto para leitores iniciados, por isso aconselha-se certa dose de paciência inicial, pois, vencidas as primeiras páginas, o estranhamento provocará a surpresa da novidade, o deleite de (re)conhecer um tipo que, apesar de exaltado e imortalizado pela Literatura e pela Arte, permanece à margem do sistema, sobrevivendo na sombra: Filisberto das Âncoras.
* Doutora em Educação – USP; professora de Português e Literatura Brasileira no IFMT – Campus Cuiabá.
terça-feira, 4 de agosto de 2009
ROMULO NÉTTO É UM PASSEIO PELA BOA LITERATURA
Isa Sousa
(Correio de Mato Grosso-Cuiabá-MT)
O encontro não poderia ter sido em melhor data: aniversário de Mato Grosso. Não que Romulo seja mato-grossense. Nascido em Paracatu, Minas Gerais, Romulo veio para o Estado em 1971 para trabalhar como jornalista na Universidade Federal de Mato Grosso. Desde então nunca mais saiu, só quando se aposentou, aos 47 anos, e passou um período no Nordeste. Escritor muito mais que jornalista, ele é daqueles sujeitos que não esquecem de onde vieram. É como se Romulo tivesse saído de Minas, mas Minas nunca tivesse saído dele.
Lançando logo de cara uma trilogia no dia 12 de maio, que mistura muito de sua vida em Paracatu e de suas histórias com a família e amigos, o autor traz a literatura quase como um modo de viver. Aos nove anos Romulo já escrevia. Um dos irmãos dizia que ser escritor só poderia dar em duas coisas: ficar louco ou morrer de tuberculose. Se ele ficou louco ainda não se descobriu, mas a tuberculose não o pegou.
O quinto filho de oito o autor conta que a infância passou entre “roubar” frutas e galinhas dos vizinhos. “Tínhamos o mapa dos galinheiros da cidade. O melhor ali daria para ladrões”, conta. Mas a vida provou o contrário. Um dos irmãos trabalha há mais de 20 anos como jornalista na União Européia. Romulo entrou de primeira na sempre tão concorrida Universidade de Brasília (UnB). “Hoje olhando pra trás, percebo que os ‘ladrões de galinha’ conseguiram vencer na vida. Os mais abastados de Paracatu nem faculdade fizeram”, analisa.
As três obras de agora têm uma ordem que deve ser respeitada. “Filisberto das Âncoras” é o primeiro. Filisberto (de feliz) é um sertanejo em meio a um sistema político e econômico de herança feudal onde os coronéis manipulam seu eleitorado. Romulo mostra através do personagem principal um homem forte, corajoso, honesto e humilde, aquele tipo de sujeito que vive à margem da sociedade e nada recebe. Filisberto é aquele que sobrevive no limite.
“As Jagunças” e “Contos dos Gerais” chegaram juntos. Uma característica bem peculiar do autor, que faz até 4 livros ao mesmo tempo, todos escritos à mão e depois passados para o computador. “Teve vez de sentar na varanda e ficar com dois cadernos na minha frente. Minha filha em casa um dia e pensou que eu tinha endoidado. Que nada. Tem hora que penso em uma coisa e essa coisa é pra determinado livro. Paro, escrevo e depois volto para o que estava. Sempre foi assim.
O diferencial de “As Jagunças” é que só há personagens femininos. São 21 mulheres no meio do sertão lutando pela sobrevivência. Ali, como afirma no prefácio do livro a professora Lucia Helena Vendrusculo Possari, mulher não é gênero, é sexo. A obra pode assustar o leitor por não ter pontuação, no máximo uma exclamação ou dois pontos. “A vida dessas mulheres não tem travessão e nem ponto final. Elas lutam e não param”, explica. Em “Contos dos Gerais”, Romulo busca mais uma vez no Brasil sertanejo sua inspiração. O autor conta de forma brilhante histórias de gente rústica e ao mesmo tempo doce, gente de brio e que não tem medo de assumir o que é.
O sertão de Minas Gerais não sai de Romulo nenhum instante durante todas as obras, mas esse quase “banzo” que o escritor sente não significa ao mesmo tempo uma aversão a Mato Grosso. “Amo esta terra. Foi aqui que conheci minha esposa, que tive minhas filhas. Mas não se apaga um passado. Minas está em mim até a raiz” A escolha pelo sertão Romulo explica sem titubear: “sou caipira, não poderia escrever sobre outra coisa”.
(Correio de Mato Grosso-Cuiabá-MT)
O encontro não poderia ter sido em melhor data: aniversário de Mato Grosso. Não que Romulo seja mato-grossense. Nascido em Paracatu, Minas Gerais, Romulo veio para o Estado em 1971 para trabalhar como jornalista na Universidade Federal de Mato Grosso. Desde então nunca mais saiu, só quando se aposentou, aos 47 anos, e passou um período no Nordeste. Escritor muito mais que jornalista, ele é daqueles sujeitos que não esquecem de onde vieram. É como se Romulo tivesse saído de Minas, mas Minas nunca tivesse saído dele.
Lançando logo de cara uma trilogia no dia 12 de maio, que mistura muito de sua vida em Paracatu e de suas histórias com a família e amigos, o autor traz a literatura quase como um modo de viver. Aos nove anos Romulo já escrevia. Um dos irmãos dizia que ser escritor só poderia dar em duas coisas: ficar louco ou morrer de tuberculose. Se ele ficou louco ainda não se descobriu, mas a tuberculose não o pegou.
O quinto filho de oito o autor conta que a infância passou entre “roubar” frutas e galinhas dos vizinhos. “Tínhamos o mapa dos galinheiros da cidade. O melhor ali daria para ladrões”, conta. Mas a vida provou o contrário. Um dos irmãos trabalha há mais de 20 anos como jornalista na União Européia. Romulo entrou de primeira na sempre tão concorrida Universidade de Brasília (UnB). “Hoje olhando pra trás, percebo que os ‘ladrões de galinha’ conseguiram vencer na vida. Os mais abastados de Paracatu nem faculdade fizeram”, analisa.
As três obras de agora têm uma ordem que deve ser respeitada. “Filisberto das Âncoras” é o primeiro. Filisberto (de feliz) é um sertanejo em meio a um sistema político e econômico de herança feudal onde os coronéis manipulam seu eleitorado. Romulo mostra através do personagem principal um homem forte, corajoso, honesto e humilde, aquele tipo de sujeito que vive à margem da sociedade e nada recebe. Filisberto é aquele que sobrevive no limite.
“As Jagunças” e “Contos dos Gerais” chegaram juntos. Uma característica bem peculiar do autor, que faz até 4 livros ao mesmo tempo, todos escritos à mão e depois passados para o computador. “Teve vez de sentar na varanda e ficar com dois cadernos na minha frente. Minha filha em casa um dia e pensou que eu tinha endoidado. Que nada. Tem hora que penso em uma coisa e essa coisa é pra determinado livro. Paro, escrevo e depois volto para o que estava. Sempre foi assim.
O diferencial de “As Jagunças” é que só há personagens femininos. São 21 mulheres no meio do sertão lutando pela sobrevivência. Ali, como afirma no prefácio do livro a professora Lucia Helena Vendrusculo Possari, mulher não é gênero, é sexo. A obra pode assustar o leitor por não ter pontuação, no máximo uma exclamação ou dois pontos. “A vida dessas mulheres não tem travessão e nem ponto final. Elas lutam e não param”, explica. Em “Contos dos Gerais”, Romulo busca mais uma vez no Brasil sertanejo sua inspiração. O autor conta de forma brilhante histórias de gente rústica e ao mesmo tempo doce, gente de brio e que não tem medo de assumir o que é.
O sertão de Minas Gerais não sai de Romulo nenhum instante durante todas as obras, mas esse quase “banzo” que o escritor sente não significa ao mesmo tempo uma aversão a Mato Grosso. “Amo esta terra. Foi aqui que conheci minha esposa, que tive minhas filhas. Mas não se apaga um passado. Minas está em mim até a raiz” A escolha pelo sertão Romulo explica sem titubear: “sou caipira, não poderia escrever sobre outra coisa”.
VISCERAL, CONTUDENTE E ATRATIVA OBRA DE ROMULO NÉTTO
Leidiane Montfort
(Jornal A Gazeta-Cuiabá-MT)
Visceral, contundente e atrativa. Assim é a obra e a personalidade do mineiro de Paracatu, radicado há 30 anos em Cuiabá, Rômulo Nétto. O escritor lança nessa semana três livros. Com os títulos As Jagunças, Filisberto das Âncoras e Conto dos Gerais o artista apresenta o estilo diferenciado de escrita, tendo como marca a linguagem própria da mineirice interiorana e ainda assim relevante, intelectual, brilhante. O jornalista escreve de forma certeira, ora sem pontos finais ou vírgulas ou ainda qualquer outro artifício para pausar a leitura. Desse modo narra, sem rodeios, a vida de homens e mulheres desse mundão de meu Deus.
Em Filisberto das Âncoras há a narração de um tantinho da vida de um sertanejo lá da bandas das Gerais. Um sujeito que com a força típica dos homens daquela região, um destino para lutar e uma vida para defender segue seu rumo em busca de algo melhor que possa aparecer algum dia. Neste livro há ainda uma denúncia do sistema político e econômico de herança feudal. A crítica política é vigente com o relato das ordens que partiam dos coronéis que ofereciam misérias como presentes e violência em abundância mantendo assim o voto dos eleitores mais pobres (maioria) no cabresto.
Com uma linguagem bem mineira, a forma de escrita nessa obra pode causar estranhamento nos mais desavisados, além de usar a oralidade do vocabulário regional e invenções de grafia há o abandono ao uso dos sinais de pontuação. O texto segue sem vírgulas, apenas ponto.
Em Contos Dos Gerais marca a edição de diversos contos feitos por Rômulo e que o inserem na lista dos bons escritores da literatura regionalista brasileira. Nesse livro Rômulo deixa transparecer a influência que autores como Guimarães Rosa e Graciliano Ramos tiveram em sua formação de escritor.
O humor também está sempre presente na obra de Rômulo, bem como a ausência dos sinais de pontuação o que acaba fazendo com que o fluxo da narrativa fique mais acelerado e por vezes capaz de deixar o leitor sem fôlego. A apresentação do livro é assinada pela doutora em comunicação pela USP e professora de português e Literatura Brasileira na UFMT, Cristina Campos ela afirma que essa obra é para apreciação dos leitores iniciados. "Vencidas as primeiras páginas, o estranhamento provocará a surpresa da novidade, o deleite de (re) conhecer um tipo que, apesar de exaltado e imortalizado pela Literatura e pela Arte, permanece à margem do sistema, sobrevivendo na sombra".
O jaguncismo típico do sertão tem sua plenitude em As Jagunças, obra que busca relatar a vida de personagens mulheres que fazem-se brutas para enfrentar a hegemonia no mundo masculino. "A vida delas não teve parágrafo, nem travessão, avisando quando deveriam nem se poderiam falar. Pontuar suas falas seria uma extravagância desnecessária", escreve a doutora em educação pela USP e professora de português e Literatura Brasileira na UFMT, Lucia Helena Vendrusculo Possari na apresentação do livro.
O autor-Romulo Nétto, 63 anos, é jornalista formado pela Universidade de Brasília, UnB, também implantou a editora universitária na UFMT, onde hoje é aposentado. Apesar de detentor de talento e sensibilidade únicas ele tem a particularidade de viver em Mato Grosso, o que poderia explicar o "ainda anonimato" de sua obra. "Tenho parentes, amigos e conhecidos por todo o país e todos falam que se eu estivesse no sul ou sudeste do país minha obra seria mais reconhecida. Não sei se é só isso, mas também não me importo", conta o autor de mais de 20 livros, entre publicados e engavetados, entre eles Ameríndia, Lua de Papel.
Para Romulo o processo de escrita é quase psicográfico, embora ele não acredite na influência de espíritos. "Não paro para pensar em que ou quem vou escrever, as coisas fluem naturalmente como sempre estivessem dentro de mim em algum lugar que eu desconhecia. Me surpreendo às vezes com o resultado", confessa.
Com o que ele se importa? "Me importo em transpor minhas lembranças e jogar para o papel os personagens que exigem que suas histórias sejam contadas e que vivem em algum lugar do meu inconsciente. Não tenho expectativas, se isso puder emocionar alguém será incrível", declara.
(Jornal A Gazeta-Cuiabá-MT)
Visceral, contundente e atrativa. Assim é a obra e a personalidade do mineiro de Paracatu, radicado há 30 anos em Cuiabá, Rômulo Nétto. O escritor lança nessa semana três livros. Com os títulos As Jagunças, Filisberto das Âncoras e Conto dos Gerais o artista apresenta o estilo diferenciado de escrita, tendo como marca a linguagem própria da mineirice interiorana e ainda assim relevante, intelectual, brilhante. O jornalista escreve de forma certeira, ora sem pontos finais ou vírgulas ou ainda qualquer outro artifício para pausar a leitura. Desse modo narra, sem rodeios, a vida de homens e mulheres desse mundão de meu Deus.
Em Filisberto das Âncoras há a narração de um tantinho da vida de um sertanejo lá da bandas das Gerais. Um sujeito que com a força típica dos homens daquela região, um destino para lutar e uma vida para defender segue seu rumo em busca de algo melhor que possa aparecer algum dia. Neste livro há ainda uma denúncia do sistema político e econômico de herança feudal. A crítica política é vigente com o relato das ordens que partiam dos coronéis que ofereciam misérias como presentes e violência em abundância mantendo assim o voto dos eleitores mais pobres (maioria) no cabresto.
Com uma linguagem bem mineira, a forma de escrita nessa obra pode causar estranhamento nos mais desavisados, além de usar a oralidade do vocabulário regional e invenções de grafia há o abandono ao uso dos sinais de pontuação. O texto segue sem vírgulas, apenas ponto.
Em Contos Dos Gerais marca a edição de diversos contos feitos por Rômulo e que o inserem na lista dos bons escritores da literatura regionalista brasileira. Nesse livro Rômulo deixa transparecer a influência que autores como Guimarães Rosa e Graciliano Ramos tiveram em sua formação de escritor.
O humor também está sempre presente na obra de Rômulo, bem como a ausência dos sinais de pontuação o que acaba fazendo com que o fluxo da narrativa fique mais acelerado e por vezes capaz de deixar o leitor sem fôlego. A apresentação do livro é assinada pela doutora em comunicação pela USP e professora de português e Literatura Brasileira na UFMT, Cristina Campos ela afirma que essa obra é para apreciação dos leitores iniciados. "Vencidas as primeiras páginas, o estranhamento provocará a surpresa da novidade, o deleite de (re) conhecer um tipo que, apesar de exaltado e imortalizado pela Literatura e pela Arte, permanece à margem do sistema, sobrevivendo na sombra".
O jaguncismo típico do sertão tem sua plenitude em As Jagunças, obra que busca relatar a vida de personagens mulheres que fazem-se brutas para enfrentar a hegemonia no mundo masculino. "A vida delas não teve parágrafo, nem travessão, avisando quando deveriam nem se poderiam falar. Pontuar suas falas seria uma extravagância desnecessária", escreve a doutora em educação pela USP e professora de português e Literatura Brasileira na UFMT, Lucia Helena Vendrusculo Possari na apresentação do livro.
O autor-Romulo Nétto, 63 anos, é jornalista formado pela Universidade de Brasília, UnB, também implantou a editora universitária na UFMT, onde hoje é aposentado. Apesar de detentor de talento e sensibilidade únicas ele tem a particularidade de viver em Mato Grosso, o que poderia explicar o "ainda anonimato" de sua obra. "Tenho parentes, amigos e conhecidos por todo o país e todos falam que se eu estivesse no sul ou sudeste do país minha obra seria mais reconhecida. Não sei se é só isso, mas também não me importo", conta o autor de mais de 20 livros, entre publicados e engavetados, entre eles Ameríndia, Lua de Papel.
Para Romulo o processo de escrita é quase psicográfico, embora ele não acredite na influência de espíritos. "Não paro para pensar em que ou quem vou escrever, as coisas fluem naturalmente como sempre estivessem dentro de mim em algum lugar que eu desconhecia. Me surpreendo às vezes com o resultado", confessa.
Com o que ele se importa? "Me importo em transpor minhas lembranças e jogar para o papel os personagens que exigem que suas histórias sejam contadas e que vivem em algum lugar do meu inconsciente. Não tenho expectativas, se isso puder emocionar alguém será incrível", declara.
PALAVRA
Palavra de nome
seu único motivado bem;
nunca roubou o sorriso
de um beija-flor.
Buscava no encanto
da floresta significados
para a destruição
avassaladora do belo.
Sem respostas fechava-se
em copas sonhando
o amanhã que jamais virá.
Por achar bonito
ele se deu o nome Palavra.
Sem culpa ou remorso
jurou carregá-lo suave
indefinidadamente.
Até hoje ninguém sabe
a etnia de Palavra.
Magnâmimo como o Senhor das Florestas
senta sobre seus calcanhares
lança seu olhar protetor
sobre jequitibás araputangas
itaúbas aroeiras.
Sorri terno para as passantes
periquitambóias pensando seus arcos
adormece na clareira
sonhando a bom sonhar
o sonho puro de seu povo.
Para chegar ao céu
é preciso escalar
uma carreira de letras
mas Palavra não sabe ler.
As esculturas esculpidas nas nuvens
rememoram sua aldeia
sem desvendar o caminho de volta;
jaguatiricas garças araras
dançam a dança dos desesperados
os olhos fundos poço sem água
coração desaquecido
nau sem bússola
ainda teima resistir.
Na calada da noite
quando todos acreditavam
dormindo ele sorrateiro
coisava pessoas
modificando comportamentos
dando a elas lição de vida.
Quem lhe veste de sabedoria
é o tempo pai maior
senhor das florestas
afagando no silêncio
momentos de tristeza.
Despertando de sua solidão precoce
Palavra pinta nas folhas
do mandovi raios de sol
pôr de lua saudades esquecimentos.
Vestir o passado de tons coloridos
maquiando atrocidades
fechar os olhos diante da destruição.
Palavra pensa com seus caracóis
ensurdecidos na morna manhã
antes da invenção do inverno
prometendo descobrir
as raízes desse inferno.
Eles vieram na calada da noite
se arrastando como cobra.
Escolheram.
Possuíram nossas virgens
mataram os anciões
envergonharam a lua
em busca do que não sabemos
levaram Palavra
um rumo incerto
uma morte anunciada
Palavra na cidade
é como um homem
sem norte na vida.
Perdido
assombrado com arranha-céus
delira febril sua floresta
rios peixes frutas encantamentos.
Seqüestraram a palavra ou Palavra
levando-o à cidade grande
cassando-lhe o direito de dizer
às árvores pássaros rios
mulheres crianças fogo ar
seu conhecimento.
Amordaçaram sua cidadania
mal chegamos ao século vinte e um.
As avenidas seus prédios modernos
assistem ao espanto de Palavra;
olhos arreganhados assustados
não entendem ônibus motos
bicicletas automóveis metrôs;
desconhecem o ronco surdo dos aviões
as pernas morenas das mulheres
seus seios quase saindo pelas blusas
como esperassem carícias.
Mudo Palavra quer voltar
para sua aldeia.
Mas não há mais aldeia!
A maquininha na esquina
saltando soltando quadrinhos
multicoloridos intriga Palavra.
Como pode aquela caixa quadrada
sorrir falar cantar?
Ela é bem pequena
mas é muito maior
que sua aldeia.
Todas as palavras
são
Palavra.
O surdo o mudo
o encanto do encontro
o índio o civilizado
Palavra desnudo
se perde na Paulista
reencontra seu Xingu.
Meu coração tem
a cor da floresta
o semblante do Pai das Águas
a natureza quase esquecida
dos primitivos donos da terra.
Não destrua
não cobice
não corrompa.
No lado esquerdo do peito
Carregaremos teu espírito!
Eu não desejo que as cinzas
do meu corpo escureçam
as curvas de teu caminho;
eu não espero que compreendas
a angústia de meus olhos
quando derrubas sorrindo
a última árvore indefesa.
Eu só desejo
que teus olhos vejam sintam
o quê todos nós vemos sentimos.
Há tanto espaço
para todos
há tanta água
para tantos sedentos
há tanta comida
para todos famintos
por quê teimam em tirar
nossa vida em cada dia?
Meu coração lusitano
esconde segredos
que só Palavra
conseguirá decifrar.
O Brasil esconde
de Palavra
as palavras que Palavra
deseja eternizar.
Sob o céu do Annhangabaú
Palavra construiu sua moradia
governantes governados
uns temendos aos outros
procuram seus ensinamentos.
A dor que dói no peito
transfigura Palavra
desatinada desavisada
machuca pensamentos.
A dor da saudade
penetra seus ossos
Palavra está sozinho
perdido na multidão.
Nem o barulho dos passantes
impede Palavra de frutar
as árvores do vale.
Soberbas exibem seus rebentos
Verdes maduros mal saídos
da florescência precoce.
Como passe de mágica
Palavra florou imenso tapete
cobrindo o vale;
extasiados passantes
boquiabertas bojudas mulheres
reconhecem a majestade divina
recobrindo de amor
a cidade violenta.
O inverno castiga fustiga
velhos crianças
penalizado Palavra
solariza a manhã
desinventando a estação.
Para Palavra
era uma noite poluída
despossuída de céu.
Azulou a redoma
estrelou os cantos
enluarou espaços
reinventou a beleza.
Perdido na cidade encantada
Palavra sabe que a honestidade
não mais faz parte do cardápio
dos donos do poder.
Perdido na cidade encantada
Palavra sabe que a honestidade
não mais faz parte do cardápio
dos donos do poder.
Na floresta desafiou
dentes e garras afiados
das onças pintadas
enfrentou sem medo jararacas
alimentou-se de frutos silvestres
escolhidos quando solitário
se preparava para tornar-se homem.
O coração dilacerado
envelhecido precocemente
quer ensaiar o retorno.
Para Palavra a vida só recupera
significado diante dos infindáveis
meandros dos rios de sua terra.
Palavra não entende porque
aqueles homens armados
estão sempre a sua volta;
ele não é dali não é um um deles.
Sofre sua dor silenciosa
resmunga solitárias vozes
castiga o chão com pisadass enérgicas
olha o céu azul
pensa o Senhor das Florestas
transmudado em gavião-real
cravando as garras sobre seus ombros
largos lhe reapresentando o Xingu.
Ágil como a suçuarana
desconfiado tal qual um bugio
Palavra desconversa
quando políticos solicitam
a fórmula mágica da procriação.
Sendo poucos já fazem tão mal
às cidades ele se põe a pensar
as conseqüências de fértil multiplicação.
O céu azul enche seus olhos
mas aperta ainda mais o coração.
Palavra imagina-se no meio do mundo
junto deles sem ser um dos seus
recorre a imemoráveis pensamentos
o homem engravatado da cidade grande
quer saber respostas para os
mistérios da vida.
Movendo a cabeça responde:
ninguém ensina o que não sabe.
Nos confins da memória
Palavra busca coragem
para sonha com o retorno;
quer na calada da noite
abraçar o passado
sentado sobre os calcanhares
lá onde o vento faz a curva
encontrar os seus sabendo
que sempre será um deles como eles.
As sofridas mães de seus filhos
talvez tenham arranjado
outros maridos; o Espírito da Noite
não pode ser mais cruel:
retira tudo que lhe é sagrado
os filhos o Xingu.
Lá no meio dos seus
as pequeninas coisas resultavam
em felicidade: colher o mel
jatobá araçá pequi
repartindo-os em múltiplas alegrias.
Ali os grilhões invisíveis
ou os olhos do grande irmão
em vigília constante
censuram sonhos pensamentos.
O mundo não é uma jaula
muito menos aquela cidade cinzenta
preso sem grades aferrado sem grilhões
Palavra se apega a sonhos
vagas lembranças; o sono conturbado
(como num filme quadro a quadro)
expõe doloridas canoas crianças.
Talvez pressentindo
que seus escassos demônios
lhe pregassem uma peça
Palavra apanha flores folhas
restos de capim tecendo vagaroso
a confortável cama.
Ali repousará sorrindo
olhando a lua cheia
imaginando nuvens xinguanas
peixes redes onças crianças
saudades ancestrais.
Surgido do nada
o Menino-Deus negro
como num passe de mágica
aperta as mãos de Palavra:
olhos entrecerrados surpresos
repisa boquiaberto
marginais areias do Xingu.
seu único motivado bem;
nunca roubou o sorriso
de um beija-flor.
Buscava no encanto
da floresta significados
para a destruição
avassaladora do belo.
Sem respostas fechava-se
em copas sonhando
o amanhã que jamais virá.
Por achar bonito
ele se deu o nome Palavra.
Sem culpa ou remorso
jurou carregá-lo suave
indefinidadamente.
Até hoje ninguém sabe
a etnia de Palavra.
Magnâmimo como o Senhor das Florestas
senta sobre seus calcanhares
lança seu olhar protetor
sobre jequitibás araputangas
itaúbas aroeiras.
Sorri terno para as passantes
periquitambóias pensando seus arcos
adormece na clareira
sonhando a bom sonhar
o sonho puro de seu povo.
Para chegar ao céu
é preciso escalar
uma carreira de letras
mas Palavra não sabe ler.
As esculturas esculpidas nas nuvens
rememoram sua aldeia
sem desvendar o caminho de volta;
jaguatiricas garças araras
dançam a dança dos desesperados
os olhos fundos poço sem água
coração desaquecido
nau sem bússola
ainda teima resistir.
Na calada da noite
quando todos acreditavam
dormindo ele sorrateiro
coisava pessoas
modificando comportamentos
dando a elas lição de vida.
Quem lhe veste de sabedoria
é o tempo pai maior
senhor das florestas
afagando no silêncio
momentos de tristeza.
Despertando de sua solidão precoce
Palavra pinta nas folhas
do mandovi raios de sol
pôr de lua saudades esquecimentos.
Vestir o passado de tons coloridos
maquiando atrocidades
fechar os olhos diante da destruição.
Palavra pensa com seus caracóis
ensurdecidos na morna manhã
antes da invenção do inverno
prometendo descobrir
as raízes desse inferno.
Eles vieram na calada da noite
se arrastando como cobra.
Escolheram.
Possuíram nossas virgens
mataram os anciões
envergonharam a lua
em busca do que não sabemos
levaram Palavra
um rumo incerto
uma morte anunciada
Palavra na cidade
é como um homem
sem norte na vida.
Perdido
assombrado com arranha-céus
delira febril sua floresta
rios peixes frutas encantamentos.
Seqüestraram a palavra ou Palavra
levando-o à cidade grande
cassando-lhe o direito de dizer
às árvores pássaros rios
mulheres crianças fogo ar
seu conhecimento.
Amordaçaram sua cidadania
mal chegamos ao século vinte e um.
As avenidas seus prédios modernos
assistem ao espanto de Palavra;
olhos arreganhados assustados
não entendem ônibus motos
bicicletas automóveis metrôs;
desconhecem o ronco surdo dos aviões
as pernas morenas das mulheres
seus seios quase saindo pelas blusas
como esperassem carícias.
Mudo Palavra quer voltar
para sua aldeia.
Mas não há mais aldeia!
A maquininha na esquina
saltando soltando quadrinhos
multicoloridos intriga Palavra.
Como pode aquela caixa quadrada
sorrir falar cantar?
Ela é bem pequena
mas é muito maior
que sua aldeia.
Todas as palavras
são
Palavra.
O surdo o mudo
o encanto do encontro
o índio o civilizado
Palavra desnudo
se perde na Paulista
reencontra seu Xingu.
Meu coração tem
a cor da floresta
o semblante do Pai das Águas
a natureza quase esquecida
dos primitivos donos da terra.
Não destrua
não cobice
não corrompa.
No lado esquerdo do peito
Carregaremos teu espírito!
Eu não desejo que as cinzas
do meu corpo escureçam
as curvas de teu caminho;
eu não espero que compreendas
a angústia de meus olhos
quando derrubas sorrindo
a última árvore indefesa.
Eu só desejo
que teus olhos vejam sintam
o quê todos nós vemos sentimos.
Há tanto espaço
para todos
há tanta água
para tantos sedentos
há tanta comida
para todos famintos
por quê teimam em tirar
nossa vida em cada dia?
Meu coração lusitano
esconde segredos
que só Palavra
conseguirá decifrar.
O Brasil esconde
de Palavra
as palavras que Palavra
deseja eternizar.
Sob o céu do Annhangabaú
Palavra construiu sua moradia
governantes governados
uns temendos aos outros
procuram seus ensinamentos.
A dor que dói no peito
transfigura Palavra
desatinada desavisada
machuca pensamentos.
A dor da saudade
penetra seus ossos
Palavra está sozinho
perdido na multidão.
Nem o barulho dos passantes
impede Palavra de frutar
as árvores do vale.
Soberbas exibem seus rebentos
Verdes maduros mal saídos
da florescência precoce.
Como passe de mágica
Palavra florou imenso tapete
cobrindo o vale;
extasiados passantes
boquiabertas bojudas mulheres
reconhecem a majestade divina
recobrindo de amor
a cidade violenta.
O inverno castiga fustiga
velhos crianças
penalizado Palavra
solariza a manhã
desinventando a estação.
Para Palavra
era uma noite poluída
despossuída de céu.
Azulou a redoma
estrelou os cantos
enluarou espaços
reinventou a beleza.
Perdido na cidade encantada
Palavra sabe que a honestidade
não mais faz parte do cardápio
dos donos do poder.
Perdido na cidade encantada
Palavra sabe que a honestidade
não mais faz parte do cardápio
dos donos do poder.
Na floresta desafiou
dentes e garras afiados
das onças pintadas
enfrentou sem medo jararacas
alimentou-se de frutos silvestres
escolhidos quando solitário
se preparava para tornar-se homem.
O coração dilacerado
envelhecido precocemente
quer ensaiar o retorno.
Para Palavra a vida só recupera
significado diante dos infindáveis
meandros dos rios de sua terra.
Palavra não entende porque
aqueles homens armados
estão sempre a sua volta;
ele não é dali não é um um deles.
Sofre sua dor silenciosa
resmunga solitárias vozes
castiga o chão com pisadass enérgicas
olha o céu azul
pensa o Senhor das Florestas
transmudado em gavião-real
cravando as garras sobre seus ombros
largos lhe reapresentando o Xingu.
Ágil como a suçuarana
desconfiado tal qual um bugio
Palavra desconversa
quando políticos solicitam
a fórmula mágica da procriação.
Sendo poucos já fazem tão mal
às cidades ele se põe a pensar
as conseqüências de fértil multiplicação.
O céu azul enche seus olhos
mas aperta ainda mais o coração.
Palavra imagina-se no meio do mundo
junto deles sem ser um dos seus
recorre a imemoráveis pensamentos
o homem engravatado da cidade grande
quer saber respostas para os
mistérios da vida.
Movendo a cabeça responde:
ninguém ensina o que não sabe.
Nos confins da memória
Palavra busca coragem
para sonha com o retorno;
quer na calada da noite
abraçar o passado
sentado sobre os calcanhares
lá onde o vento faz a curva
encontrar os seus sabendo
que sempre será um deles como eles.
As sofridas mães de seus filhos
talvez tenham arranjado
outros maridos; o Espírito da Noite
não pode ser mais cruel:
retira tudo que lhe é sagrado
os filhos o Xingu.
Lá no meio dos seus
as pequeninas coisas resultavam
em felicidade: colher o mel
jatobá araçá pequi
repartindo-os em múltiplas alegrias.
Ali os grilhões invisíveis
ou os olhos do grande irmão
em vigília constante
censuram sonhos pensamentos.
O mundo não é uma jaula
muito menos aquela cidade cinzenta
preso sem grades aferrado sem grilhões
Palavra se apega a sonhos
vagas lembranças; o sono conturbado
(como num filme quadro a quadro)
expõe doloridas canoas crianças.
Talvez pressentindo
que seus escassos demônios
lhe pregassem uma peça
Palavra apanha flores folhas
restos de capim tecendo vagaroso
a confortável cama.
Ali repousará sorrindo
olhando a lua cheia
imaginando nuvens xinguanas
peixes redes onças crianças
saudades ancestrais.
Surgido do nada
o Menino-Deus negro
como num passe de mágica
aperta as mãos de Palavra:
olhos entrecerrados surpresos
repisa boquiaberto
marginais areias do Xingu.
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