sábado, 8 de agosto de 2009

INACABADOS - POESIA

JOÃO TERNURA

Hoje João Ternura fez moradia
em meu coração talvez talvez
procure aquecer-se: lá fora é frio
e a chuva milagreira se arrasta
horas a fio: a noite suave
engoliu luas e estrelas
e ele pobre menino descalço
procura sem sono o compasso lento
de meu coração.
Hoje João Ternura está triste
não me faz cócegas nos pés
não brinca de assombração
não derruba pratos na cozinha
não põe sal nos doces de mamãe.
Olho para João Ternura e tenho medo:
talvez talvez ele tenha ficado adulto
e não queira brincar de ciranda
e soltar balão comer pé de moleque
deixando o doce escorrer pela boca
como é próprio das crianças.
João Ternura está sério: olha-me enviesado
não me faz caretas nem põe a língua para fora.
Olho-o a um canto da sala:
cabisbaixo magicando fazendo saudades.
Num relance sinto imensa ternura
grassar em seus olhos: e ele me ri
um riso puro e travesso.
Nessas horas ele é meu anjo da guarda
não poupa conselhos
guia-me os passos
abre-me os olhos.
O canto da sala é seu lugar preferido
seu mundo encantado
é onde brinca de faz-de-conta
sobrecerrando os olhos claros
pensando nova traquinagem
para depois de amanhã
João Ternura é puro demais
para ser criança
e criança demais para ser divino.
Hoje certamente ele não pensa
em colocar espinhos sob o lençol
da cama de papai: ou dar banho
no gato de estimação de minhas irmãs
hoje está João demais
para ser o espírito das coisas.
João Ternura mora em mim
sem a marotice de antigamente
faz-me dois ou três carinhos
ri-me um riso estridente
fecha-se em seu mundo encantado
e quando penso que está sério
vejo João Ternura
brincando de fazer saudade.

TEMA NÚMERO DOIS

Não importa tua cor tua altura
teus olhos religião poder aquisitivo
tua beleza exterior.
Repara: ao lado há um coração vagabundo
cansado ainda querendo se entregar todo
venha vê-lo senti-lo.
Inscrições abertas eternamente enquanto
houver sinal de vida inteligência;
todos os andares deste coração envelhecido
precocemente têm janelas voltadas
para o sol fonte da vida.
O edifício-coração é grande porém
comporta apenas outro coração: o teu.

TEMA NÚMERO UM

Minha casa meu exílio permanente
falta-me o mais rudimentar
sinal de tua presença
teu riso claro enigma encimando
as portas escuras;
a sombra no jardim
passos no quintal; o calor
de teu corpo após a saída do banho
a música envolvente penetrando
meus sonhos e ouvidos
na calma de quem não quer nada
mesmo querendo tudo.
Teu beijo em minha boca
de menino travesso
esperando castigo
pelas traquinagens de anteontem.
Tudo é passado em minha mente
permanece apenas a dúvida
invadindo o pensamento;
minha casa meu exílio permanente
tua sombra o beijo roubado
com gosto de café sobremesa
doce de pêssego saudade.

CANÇÃO

É preciso fazer uma canção
para as velhas prostitutas
aquelas que ganharam jóias
palacetes e milhões dos coronéis
das Gerais em passeio pelo Rio.
Como esquecer o riso estridente
no meio da noite morna
povoada por álcool e boleros!
Hoje com o corpo cansado
rugas acentuadas no rosto
de velhice precoce
sentadas na soleira da casa
colonial elas esperam
esperam o amante que não virá
jamais talvez tenha morrido
de tuberculose ou sífilis
e ela sonha num sonhar sem fim:
a mulher-dama de ontem
vê refletido no espelho da sala
seu rosto de antigamente
teve colares perfume francês
roupas de seda
hoje as peças são de chita o perfume barato
e o batom vermelho-púrpura
retoca os lábios quase murchos
a boca semidesdentada: tudo
são apenas lembranças guardadas
no peito maltratado pelos estranhos amores.
Mas a vida... a vida continua
entre sonhos esperanças e pesadelos.

PÁSSAROS

Trago em minha memória cansada
os pássaros
todos os pássaros de minha perdida
lembrança ancestral
eles se bicam numa luta
desigual
se enfrentando calorosos na disputa
de um futuro
que não viverão jamais.

SEGREDOS

Fabriquei o tempo
com minhas mãos podres
de argila sentimentos
guardei na bolsa de marfim
todos os segredos passados futuros
redesenhei na memória
o eco do destino
me afundei em beijos
nos teus seios de terra
mãe solidária juvenil.

CONVERSAS

Para saber quem sou o que serei
mergulhei em lusco-fuscos
cogumelos me perdi em conversas
com antigas formigas
palreei dúvidas
com curiangos abóboras
naveguei por sete mares
indefeso me rendi
aos encantos das pedras
dos riachos das borboletas
ao terceiro dia ressuscitei
sem lágrimas sem pátria
sem opinião.

RENATUREZA

Não adianta saber que a noite
escancara sua boca de madrugada
com gigantes dentes estelares
ou que enquanto durmo
renasço em sonhos outonais.
não adianta mastigar estrelas
pensando prensá-las
em papel reciclável.

RECORDAÇÕES

Desde sempre me perdi
entre sonhos buritizais
mamulengos doces de caju
teus sorrisos de anteontem
quando ainda nem pensava
teu beijo;
desde hoje eu quero
aparar meu caminho
esquecer jardins pintassilgos
ilusórias recordações.

MARIA

As Marias do meu tempo
andavam vestidas de branco
longos lenços envolvendo
a cabeça;
hoje nossas Marias pintam
os lábios de carmim
não conversam com as pedras
sonham cassinos desfiles de moda
um beijo de desconhecidos
recortado de página qualquer
de revistas folhetins.

NUVENS

As nuvens pensaram em mim
se derreteram
esparramando pelo chão
brotando vidas.

AGONIA

Hoje por pura maldade
desmembrei o pensamento
dos pássaros
atirei para longe
calmo assisti a agonia
de um por um.

NATURALMENTE

As mesmices se escondem
nas patas do louva-a-deus?
No diálogo ensandecido
do tamanduá com formigas
ou no piscar de olhos
dos que naturalmente tiram
de cada pobre necessitado
o seu pão nosso de todos os dias?

PESADELO

Passeei os olhos mal acordados
por sobre o visgo das lesmas
em permanente banquete
no fundo do quintal;
relembrei segredos desejos
incontidos somadas saudades
parei no tempo como
bailasse beija-flor
era domingo véspera
do casamento de meus avós.

FELICIDADE

À noite esquecido de mim
também de todos
eu me perco ouvindo grilos
sorrindo estrelas
beijando fragâncias fugidias
dos raios lunares;
à noite quando posso
deserdo sorrisos
finjo que a felicidade
está a um palmo das mãos.

DAS COISAS

Das coisas que me lembro
as que mais tenho saudades
é de quando nadava estrelas
num mar de almas calmas
encravadas no sertão cerrado;
das longas conversas com
mirrados pés de paus
do desejo incontido
de decifrar futuros
rememorando todos os passados.

POEMA PARA QUEM
VIVE NO MEIO DO CERRADO

Em se plantando só
já tudo dá.

I
Hoje passarei minha vida a limpo
somarei a ela os beijos esquecidos
os olhares que não nos demos
os sorrisos que não trocamos
hoje passei minha vida a limpo.

II
Brinco o amor com sangue suor
brinco o amor como as mulheres
brincam com seus homens
brinco por conhecer meu destino
elas para matar a fome.

III
Quando o sol nasce
deflorando tuas retinas
sinto a razão da vida
viver para amar
morrer em busca de teu amor.

IV
Quando puder beberei
em teu olhar todo meu futuro
quando quiser beberás
em meus sorrisos a história de nossas vidas.

V
Reconheço que sempre ti traí
com as estrelas sedutoras
elas me visitavam
nas noites juninas enquanto dormias.

VI
Teus braços minha casa
teus olhos meus exílio permanente.

Um comentário:

  1. eu posso ser suspeita pra falar.
    mas todas essas palavras me trazem lágrimas aos olhos.
    amo seus contos, mas seus poemas são valiosos demais pra mim.
    eu te amo. (:

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