sábado, 8 de agosto de 2009

CONTOS DOS GERAIS

Maria de Lourdes Bandeira De Lamonica Freire*

Devemos a Darcy Ribeiro uma teoria geral do Brasil que explica o processo de nossa formação e sentido, tornando-nos inteligíveis enquanto povo e situando-nos na humanidade. Somos, segundo o mestre Darcy Ribeiro, um povo novo com uma vida vivida em situação de dependência e opressão, mas com gana de mandar no nosso destino, muito embora como diga Chico Buarque de Holanda eis que chega a roda viva e carrega o destino pra lá.
Para explicar a unidade e a diversidade do povo brasileiro, Darcy cria o conceito de macro-etnia que remete à unidade e dos brasis que historicamente se formaram como núcleos aglutinadores e aculturadores que remetem às diferenças, às diversidades.
Entre esses variados brasis destaca-se o Brasil sertanejo, em que historicamente se forma o povo dos gerais, a gente dos sertões, gente boa, leal, prestimosa, respeitosa, sem medo do ermo das vastidões. Gente lacônica, rústica. Gente de honra, de brio, mas que também não tem problemas em contrariar ou em quebrar regras, em assumir condutas anômicas e quando assumidas, levadas às últimas consequências, às raias da dor e da violência.
Romulo escolheu o Brasil sertanejo como pátria de seus contos, a exemplo dos maiores que nela encontraram suas nascentes criativas, como João Guimarães Rosa, como Bernardo Elis.
É nesse Brasil profundo que se enraízam os contos de Romulo Nétto e é essa gente dos gerais que os protagoniza. São contos lacônicos, densos, humanos. São contos que nos afrontam com a face trágica de nossa humanidade. São contos pungentes, mas ainda assim pontuados de lirismo que ás vezes nele se incrusta como cristais luminosos ou como bordados singelos das mulheres dos gerais.
Os Contos dos Gerais se colocam na rica e fecunda esteira da literatura regional brasileira e Dostoievsky já dizia, com toda sabedoria que nada mais universal que o local e, por extensão, que o regional.
A edição desses contos enriquece as letras mato-grossenses e conferem a Romulo o reconhecimento literário que há muito lhe é devido.

* Pós-doutora em Antropologia pela Universidade de São Paulo.

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