terça-feira, 4 de agosto de 2009

PALAVRA

Palavra de nome
seu único motivado bem;
nunca roubou o sorriso
de um beija-flor.
Buscava no encanto
da floresta significados
para a destruição
avassaladora do belo.
Sem respostas fechava-se
em copas sonhando
o amanhã que jamais virá.

Por achar bonito
ele se deu o nome Palavra.
Sem culpa ou remorso
jurou carregá-lo suave
indefinidadamente.

Até hoje ninguém sabe
a etnia de Palavra.
Magnâmimo como o Senhor das Florestas
senta sobre seus calcanhares
lança seu olhar protetor
sobre jequitibás araputangas
itaúbas aroeiras.
Sorri terno para as passantes
periquitambóias pensando seus arcos
adormece na clareira
sonhando a bom sonhar
o sonho puro de seu povo.

Para chegar ao céu
é preciso escalar
uma carreira de letras
mas Palavra não sabe ler.

As esculturas esculpidas nas nuvens
rememoram sua aldeia
sem desvendar o caminho de volta;
jaguatiricas garças araras
dançam a dança dos desesperados
os olhos fundos poço sem água
coração desaquecido
nau sem bússola
ainda teima resistir.

Na calada da noite
quando todos acreditavam
dormindo ele sorrateiro
coisava pessoas
modificando comportamentos
dando a elas lição de vida.

Quem lhe veste de sabedoria
é o tempo pai maior
senhor das florestas
afagando no silêncio
momentos de tristeza.
Despertando de sua solidão precoce
Palavra pinta nas folhas
do mandovi raios de sol
pôr de lua saudades esquecimentos.

Vestir o passado de tons coloridos
maquiando atrocidades
fechar os olhos diante da destruição.
Palavra pensa com seus caracóis
ensurdecidos na morna manhã
antes da invenção do inverno
prometendo descobrir
as raízes desse inferno.

Eles vieram na calada da noite
se arrastando como cobra.
Escolheram.
Possuíram nossas virgens
mataram os anciões
envergonharam a lua
em busca do que não sabemos
levaram Palavra
um rumo incerto
uma morte anunciada

Palavra na cidade
é como um homem
sem norte na vida.
Perdido
assombrado com arranha-céus
delira febril sua floresta
rios peixes frutas encantamentos.

Seqüestraram a palavra ou Palavra
levando-o à cidade grande
cassando-lhe o direito de dizer
às árvores pássaros rios
mulheres crianças fogo ar
seu conhecimento.
Amordaçaram sua cidadania
mal chegamos ao século vinte e um.

As avenidas seus prédios modernos
assistem ao espanto de Palavra;
olhos arreganhados assustados
não entendem ônibus motos
bicicletas automóveis metrôs;
desconhecem o ronco surdo dos aviões
as pernas morenas das mulheres
seus seios quase saindo pelas blusas
como esperassem carícias.
Mudo Palavra quer voltar
para sua aldeia.
Mas não há mais aldeia!

A maquininha na esquina
saltando soltando quadrinhos
multicoloridos intriga Palavra.
Como pode aquela caixa quadrada
sorrir falar cantar?
Ela é bem pequena
mas é muito maior
que sua aldeia.

Todas as palavras
são
Palavra.

O surdo o mudo
o encanto do encontro
o índio o civilizado
Palavra desnudo
se perde na Paulista
reencontra seu Xingu.

Meu coração tem
a cor da floresta
o semblante do Pai das Águas
a natureza quase esquecida
dos primitivos donos da terra.
Não destrua
não cobice
não corrompa.
No lado esquerdo do peito
Carregaremos teu espírito!

Eu não desejo que as cinzas
do meu corpo escureçam
as curvas de teu caminho;
eu não espero que compreendas
a angústia de meus olhos
quando derrubas sorrindo
a última árvore indefesa.
Eu só desejo
que teus olhos vejam sintam
o quê todos nós vemos sentimos.

Há tanto espaço
para todos
há tanta água
para tantos sedentos
há tanta comida
para todos famintos
por quê teimam em tirar
nossa vida em cada dia?

Meu coração lusitano
esconde segredos
que só Palavra
conseguirá decifrar.

O Brasil esconde
de Palavra
as palavras que Palavra
deseja eternizar.

Sob o céu do Annhangabaú
Palavra construiu sua moradia
governantes governados
uns temendos aos outros
procuram seus ensinamentos.

A dor que dói no peito
transfigura Palavra
desatinada desavisada
machuca pensamentos.
A dor da saudade
penetra seus ossos
Palavra está sozinho
perdido na multidão.

Nem o barulho dos passantes
impede Palavra de frutar
as árvores do vale.
Soberbas exibem seus rebentos
Verdes maduros mal saídos
da florescência precoce.

Como passe de mágica
Palavra florou imenso tapete
cobrindo o vale;
extasiados passantes
boquiabertas bojudas mulheres
reconhecem a majestade divina
recobrindo de amor
a cidade violenta.

O inverno castiga fustiga
velhos crianças
penalizado Palavra
solariza a manhã
desinventando a estação.

Para Palavra
era uma noite poluída
despossuída de céu.
Azulou a redoma
estrelou os cantos
enluarou espaços
reinventou a beleza.

Perdido na cidade encantada
Palavra sabe que a honestidade
não mais faz parte do cardápio
dos donos do poder.

Perdido na cidade encantada
Palavra sabe que a honestidade
não mais faz parte do cardápio
dos donos do poder.

Na floresta desafiou
dentes e garras afiados
das onças pintadas
enfrentou sem medo jararacas
alimentou-se de frutos silvestres
escolhidos quando solitário
se preparava para tornar-se homem.
O coração dilacerado
envelhecido precocemente
quer ensaiar o retorno.
Para Palavra a vida só recupera
significado diante dos infindáveis
meandros dos rios de sua terra.

Palavra não entende porque
aqueles homens armados
estão sempre a sua volta;
ele não é dali não é um um deles.
Sofre sua dor silenciosa
resmunga solitárias vozes
castiga o chão com pisadass enérgicas
olha o céu azul
pensa o Senhor das Florestas
transmudado em gavião-real
cravando as garras sobre seus ombros
largos lhe reapresentando o Xingu.

Ágil como a suçuarana
desconfiado tal qual um bugio
Palavra desconversa
quando políticos solicitam
a fórmula mágica da procriação.
Sendo poucos já fazem tão mal
às cidades ele se põe a pensar
as conseqüências de fértil multiplicação.

O céu azul enche seus olhos
mas aperta ainda mais o coração.
Palavra imagina-se no meio do mundo
junto deles sem ser um dos seus
recorre a imemoráveis pensamentos
o homem engravatado da cidade grande
quer saber respostas para os
mistérios da vida.
Movendo a cabeça responde:
ninguém ensina o que não sabe.

Nos confins da memória
Palavra busca coragem
para sonha com o retorno;
quer na calada da noite
abraçar o passado
sentado sobre os calcanhares
lá onde o vento faz a curva
encontrar os seus sabendo
que sempre será um deles como eles.
As sofridas mães de seus filhos
talvez tenham arranjado
outros maridos; o Espírito da Noite
não pode ser mais cruel:
retira tudo que lhe é sagrado
os filhos o Xingu.

Lá no meio dos seus
as pequeninas coisas resultavam
em felicidade: colher o mel
jatobá araçá pequi
repartindo-os em múltiplas alegrias.
Ali os grilhões invisíveis
ou os olhos do grande irmão
em vigília constante
censuram sonhos pensamentos.

O mundo não é uma jaula
muito menos aquela cidade cinzenta
preso sem grades aferrado sem grilhões
Palavra se apega a sonhos
vagas lembranças; o sono conturbado
(como num filme quadro a quadro)
expõe doloridas canoas crianças.

Talvez pressentindo
que seus escassos demônios
lhe pregassem uma peça
Palavra apanha flores folhas
restos de capim tecendo vagaroso
a confortável cama.
Ali repousará sorrindo
olhando a lua cheia
imaginando nuvens xinguanas
peixes redes onças crianças
saudades ancestrais.

Surgido do nada
o Menino-Deus negro
como num passe de mágica
aperta as mãos de Palavra:
olhos entrecerrados surpresos
repisa boquiaberto
marginais areias do Xingu.

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