Lucia Helena Vendrusculo Possari*
Em As Jagunças, Romulo Nétto abusa do jaguncismo e apresenta ao leitor uma obra jagunça.
Sabe-se que de tanto andar pelo mundo, pela Ameríndia, pelas Serras das Gerais, vindo de Paracatu e enraizando-se em Cuiabá, Romulo Nétto, oferece em sua poesia,em seus contos, em seu romance aquilo em que cravou olho, gravou nos ouvidos, transformando em arte a vida.
Especificamente neste texto – não me arrisco aqui a classificá-lo como o faz a teoria clássica da literatura – o autor intensifica sua escrita, na prosa, com muita poética, para tratar de uma história de personagens mulheres – e neste texto elas não são gênero, são sexo – num tempo e num espaço que, mesmo mostrado cronologicamente e espacialmente, remete o leitor a qualquer lugar do mundo, em qualquer tempo, onde o horror, a submissão e resistência têm feito história. A história da in-dignidade humana.
O tempo é um tempo cultural, metonímico. Ao mesmo tempo em que a narrativa se faz no passado, há a pressuposição de um ainda-não. Assim, na leitura, fundem-se no presente.
As mulheres empreendem uma luta contra a hegemonia do homem. Fazem-se brutas, fazem-se mulheres com os homens e de homens com as mulheres. Fogem de ser mulheres para construírem seu lugar nos desmundos e nos desmandos.
Há todo tipo de relações que precisam ser refeitas – apesar da hegemonia: as das mulheres das várias regiões, das várias culturas, das várias linguagens, das várias etnias, trazendo à ribalta forma de resistência, de formulação de alternativas subalternas e insurgentes.
São lutas e contradições permanentes, nas subjetividades, nas intersubjetividades, nos atos tresloucados coletivos.
Prevenindo opressão e dominação, criam uma ecologia de diferenças, que subsistem enquanto permanece a hierarquia, mas fazem disso uma denúncia poderosa, ao ponto que à hierarquia não é permitido desaparecer.
A luta contra a exclusão e a dominação funda essa diferenciada literatura, onde as jagunças não se organizam nem se constituem como se vê em situações culturais outras. Elas são a própria des-organização do tempo-acontecimento, tornando-o policrônico, progredindo não-linearmente e vice-versa.
Com essa estruturação de roteiro, como se poderia pensar a forma de apresentação? A linguagem é mastigada por elas, sem pontos ou vírgulas.
A vida deles não teve parágrafo, nem travessão, avisando quando deveriam e nem se poderiam falar. Pontuar suas falas seria uma extravagância desnecessária. A transposição da oralidade, se, no início, provoca um certo des-gosto aos acostumados com a linguagem-padrão, logo após, mergulha-nos no mundo delas, numa ecologia de saberes. Suas histórias, seu real, nos chegam pelos seus conceitos e pela própria linguagem jagunça.
Para falar sobre As Jagunças me foi necessário ler desarmadamente, por várias vezes, rabiscando, buscando nexos, nem sempre visíveis. Que bobagem a minha! Esse texto é rede de conhecimentos para os quais não se tem mapa, as jagunças são rizomas.
* Doutora em Semiótica pela Universidade de São Paulo. Professora do Departamento de Comunicação da UFMT – Campus Cuiabá.
sábado, 8 de agosto de 2009
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