Cristina Campos*
A obra Filisberto das Âncoras, de Romulo Nétto, narra um trecho da vida de um sertanejo típico dos Gerais – região de Cerrado que atravessa vários Estados brasileiros, como Bahia, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso. Sujeito forte, corajoso, honesto e humilde, incorpora a alma de uma parcela de cidadãos que quase nada recebem da sociedade. Profundo conhecedor das potencialidades do Cerrado, cujas riquezas naturais sabe explorar como ninguém, sobrevivendo no limite, Filisberto é, antes de tudo, um forte, junto com sua companheira, Hemengarda Epifânia. Apesar das agruras do cotidiano, é feliz (Filisberto), chumbado no chão sertanejo (das Âncoras), quase bicho.
Neste livro, Romulo Nétto denuncia um sistema político e econômico de herança feudal, comandado por coronéis que se perpetuam no poder manipulando os eleitores, valendo-se de diferentes estratégias: desde bajulação e compra de consciências até o uso da força armada, aquartelando pessoas para nos “currais” eleitorais – prática que se perpetua, atualizada, em muitos locais do País.
Como um bom mineiro, o autor se mantém fiel às suas origens: a linguagem explorada em Filisberto das Âncoras surpreende um leitor desavisado, pois, além de utilizar a dicção e o vocabulário regional, aproximando o texto escrito da oralidade, ele reinventa grafias e praticamente abole os tradicionais sinais de pontuação, o que acelera o fluxo da narrativa e da consciência, mas perturba e confunde, propositalmente, o interlocutor.
É um texto para leitores iniciados, por isso aconselha-se certa dose de paciência inicial, pois, vencidas as primeiras páginas, o estranhamento provocará a surpresa da novidade, o deleite de (re)conhecer um tipo que, apesar de exaltado e imortalizado pela Literatura e pela Arte, permanece à margem do sistema, sobrevivendo na sombra: Filisberto das Âncoras.
* Doutora em Educação – USP; professora de Português e Literatura Brasileira no IFMT – Campus Cuiabá.
sábado, 8 de agosto de 2009
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