


‘As Jagunças’, ‘Filisberto das Âncoras’ e ‘Contos dos Gerais’ revelam a força de um autor com intensa paixão pelo cerrado e por Guimarães Rosa
Ramon Franco*
Como o sexo é um instinto, o leitor também, instintivamente perceberá, aos poucos, a força das palavras e das mensagens, sem vírgulas, do romancista e contista Romulo Nétto. Autor da chamada trilogia dos gerais, o jornalista diplomado reuniu em ‘As Jagunças’, ‘Contos dos Gerais’ e ‘Filisberto das Âncoras’ (os três publicados em 2009 pela Carlini & Caniato Editorial, de Cuiabá, MT) tramas e personagens que naturalmente conviveriam ombro a ombro com os retratados pelo mestre Guimarães Rosa em ‘Sagarana’, ‘Primeiras Estórias’ e ‘Grande Sertão: Veredas’. Mineiro, conterrâneo de Afonso Arinos de Melo Franco, de ‘Pelo Sertão’, Nétto recorre ao instinto de preservação e de estabelecimento de justiça para narrar vidas e tramas.
O instinto de preservação, por exemplo, pode fazer as pessoas a procurarem prazeres sexuais e em muitas páginas deste autor radicado em Cuiabá surgem a força atrativa da carne, a ânsia por vingança que alimenta ações das mulheres que, em ‘As Jagunças’, compõem um raro bando, bem como o peso geográfico dos gerais e ainda a forma roseana de prosear e narrar fatos.
Os trabalhos do romancista residem no efeito e na estrutura do conto genuinamente brasileiro, mesclando o roteiro literário de Orígenes Lessa (tido por Jorge Amado como o maior contista da moderna literatura brasileira) com as palavras e o cenário que inspiraram o autor de ‘Sagarana’. Nétto revela um jeito independente de estruturar seus personagens dentro do romance, assim cada capítulo em ‘As Jagunças’ é uma micro novela, estruturada com personagens que muitas vezes se repetem em outros momentos do livro. Falar da trilogia de forma isolada seria privar o leitor de ampliar o conhecimento do mundo ficcional deste nome das letras brasileiras. Uma ressalva deve ser constatada: o autor peca no igualar e unificar as narrativas de personagens com idades e trajetórias diferentes na voz comum de um único narrador, como se todos fossem o mesmo fio condutor. Entretanto, este fio condutor único é justificável. Trata-se de Romulo Nétto, o exato narrador de todos os enredos contidos na trilogia que não congrega apenas Minas, mas Mato Grosso, o cerrado e o Brasil. Tal como o efeito de rodar pelo solo mineiro, ainda que observando as linhas e contornos cartográficos contidos em seu mapa, e dizer: Minas Gerais é mesmo um ‘mundão’. Romulo Nétto é literatura brasileira contemporânea.
*Ramon Franco é jornalista e escritor em Marília, São Paulo. Em 2007 conquistou menção honrosa no concurso de contos ‘Tragédias Cariocas Hoje’, da editora Nova Fronteira (RJ), e o terceiro lugar no V Concurso Municipal de Contos Premio ‘Prefeitura de Niterói’, em Niterói (RJ).
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